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Correio da Manhã

Portugal
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DEIXEM A MINHA FILHA EM PAZ QUE NADA DEVO

“Vais morrer. Vamos-te matar!”, ameaçaram os dois homens, antes de abandonarem Vera Lúcia e entrarem para um carro onde um terceiro homem os aguardava. A jovem educadora infantil, de 20 anos, exausta e confusa, estendida no solo, viu os faróis da viatura dos sequestradores rasgarem a noite no serpentear daquela estrada florestal. Reuniu as forças que o pânico paralisara e arrastou-se até ao seu carro, donde telefonou para a família.
13 de Maio de 2003 às 00:00
Vera conta a sua extraordinária história com uma calma e doçura que não se esperaria a quem viveu dois violentos pesadelos. Como o CM noticiou, em 31 de Março foi sequestrada em Vila do Conde por dois homens que sob ameaça de pistola a forçaram a seguir no seu carro até uma zona erma já em Viana do Castelo. Bateram-lhe, vendaram-na e abandonaram-na. Não a violaram nem lhe exigiram dinheiro ou sequer o telemóvel. Utilizando a sua própria viatura, Vera Lúcia apresentou-se na GNR de Lanheses dando conta do sucedido.
Agora, na quarta-feira, como noticiámos ontem, tudo se repetiu: “Estava no interior do carro, esperando a minha avó junto à igreja de Canidelo [Vila do Conde] quando dois indivíduos entraram de rompante pela porta de trás. Eram os mesmos e eu nem queria acreditar”, recorda. Os meliantes obrigaram-na a conduzir até uma zona da freguesia de Vilarinho. Agrediram-na, ameaçaram, mas, de novo, nada quiseram roubar.
José Maria Sá, pai de Vera Lúcia, empresário da construção civil, de 53 anos, não tem trabalhado nos últimos dias. “Estou em casa, tenho que proteger a minha família, não acha? E volta e meia faço uns giros pelas redondezas para garantir que ninguém anda por aqui com más intenções”, diz. A mãe de Vera Lúcia, Conceição, também não arreda pé de perto da filha, não escondendo a sua preocupação. “O meu marido é diabético, eu sofro de epilepsia, andamos assustados. Só pedimos a Deus que traga de novo a paz à nossa família”, suplica.
É que o pesadelo da família Sá ainda está longe do fim. Telefonemas anónimos na quinta e sexta-feira avivaram as preocupações. No sábado, um terceiro telefonema trouxe um pouco de luz ao mistério. “Escusam de nos procurar. Devolvam-nos o dinheiro!”, intimou uma voz que carregava nos erres e que Vera facilmente reconheceu. “Eram eles”, garante.
“É gente que quererá cobrar uma dívida mas nada devo a ninguém. Não sou rico mas tenho a minha vida organizada. Sou pessoa de bem e as pessoas com quem lido sabem que é assim. Só pode haver confusão com outra família ”, desabafa José Maria.
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