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Correio da Manhã

Portugal
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Demónio solto à volta de Mação

A coluna de fumo negro via-se a mais de 50 quilómetros, mas a essa distância era difícil imaginar a aflição por que estavam a passar as populações dos concelhos de Mação (Santarém) e Gavião (Portalegre), os mais ameaçados ontem pelas chamas.
6 de Setembro de 2005 às 00:00
Fogos ameaçaram aldeias em Mação e Gavião
Fogos ameaçaram aldeias em Mação e Gavião FOTO: Cosme Durão
Os incêndios voltaram a lavrar de forma impiedosa no Centro do País e, ao anoitecer, duas frentes de fogo alastravam sem controlo. O incêndio veio de Mação e rapidamente entrou em Gavião, onde cortou uma estrada e a linha ferroviária. As mãos de muitos populares elevaram-se para o Céu, pedindo a Deus que lhes levasse dali o inferno, mas ontem, definitivamente, a força da natureza estava endiabrada.
Extenuados, os mais de 470 bombeiros destacados para o teatro de operações, alguns há mais de 48 horas, travavam uma luta desigual com as labaredas, apesar do auxílio de sete meios aéreos.
Mas, pior que isso, tiveram que enfrentar um inimigo poderoso – o vento –, que não estava nas previsões da meteorologia e teimava em baralhar a estratégia de combate. “A gente não dá para tudo”, lamentava um bombeiro de Almoçageme (Sintra), abrindo os braços em sinal de resignação. Estava na rua principal de Monte Penedo, Mação, e um morador alertara-o para mais um foco de incêndio. Era o quarto ou quinto a deflagrar no espaço de meia hora.
Devastadoras, as chamas vinham de Norte, regressavam de Leste, para voltarem a lavrar de Este. Cortaram a A23 entre o nó de Mouriscas e Gardete. “Isto é pior que o demónio”, dizia um morador de Vale de Abelha. O medo tornou a moldar os rostos e as vozes indignaram-se pedindo mão pesada para os incendiários. “Se tivessem posto um ou dois na fogueira, nada disto acontecia”, reclamava Conceição Lopes, 67 anos.
Segundo Saldanha Rocha, presidente da Câmara de Mação, e Paulo Fonseca, governador civil de Santarém, terá havido mão criminosa nestes fogos. Os bombeiros contavam ter as chamas controladas na madrugada de hoje.
PORMENORES
FIGUEIRÓ
A PJ de Coimbra deteve um servente de pedreiro de 23 anos, solteiro, suspeito de seis incêndios florestais (um o ano passado e cinco este ano) em Figueiró dos Vinhos onde arderam 30 mil hectares.
MAIS DOIS
Um jovem de 17 anos, suspeito de vários fogos na zona de Águeda, foi detido pela PJ de Aveiro. Já a PJ da Guarda deteve de um jornaleiro de 58 anos suspeito de um incêndio domingo em Trancoso.
DURÃO AJUDA
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, anunciou ontem estar disposto a ajudar Portugal a activar o Fundo de Solidariedade europeu, avisando que o pedido tem que ser feito pelo Governo.
MINUTO
O Parlamento Europeu recordou ontem as “terríveis catástrofes naturais” ocorridas durante o Verão, entre as quais os incêndios em Portugal, observando um minuto de silêncio pelas vítimas.
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