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Correio da Manhã

Portugal
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Denúncias explosivas previstas para hoje

"Em vez de estareis aqui a espiar-me os movimentos, devíeis era verificar com quem estão as vossas mães e mulheres nesta altura". Foi assim que Alfredo Palas, principal arguido no julgamento nas casas de alterne na zona de Mirandela, se dirigiu ontem aos jornalistas, mal saiu do carro celular que o transportou ao tribunal da cidade.
3 de Maio de 2005 às 00:00
Sempre com um ar autoconfiante, foi, mesmo sem intervir, o protagonista do dia. Soube-se que quer depor e diz-se que fará denúncias explosivas.
O julgamento começou com a apresentação de recursos e ficou marcado pela ausência de 40 por cento das testemunhas. Após a análise dos recursos, antes do final da audiência de ontem, Maria da Conceição Nunes, juiz presidente do colectivo, perguntou aos advogados quem eram os arguidos que iriam depor. O defensor de Palas disse que o seu cliente ia falar e os demais advogados, de imediato, deram todos a mesma resposta: “Dependendo daquilo que o arguido disser é que vamos analisar se os nossos constituintes vão usar da palavra”.
Nos corredores do tribunal, ontem à tarde, circulava à boca pequena a informação de que Alfredo Palas iria no dia seguinte (hoje) fazer revelações comprometedoras para muita gente. Os seus amigos dizem que se sentiu abandonado por pessoas em quem confiava e que, imprevisível como é, não vai ficar calado para encobrir ninguém.
RECURSOS ENTOPEM INÍCIO
O dia de ontem foi integralmente preenchido com a apresentação de recursos, visando alterar peças processuais dos autos, com o registo de intervenções da maioria dos advogados.
As solicitações do defensor de Alfredo Palas, claro, foram as que mais atraíram as atenções. Tiveram pouca sorte. O advogado pediu a nulidade das escutas telefónicas realizadas na investigação ao seu cliente, argumentando que não teriam sido validadas pelo Ministério Público. O colectivo considerou improcedente o recurso, tal como o fez em relação a outras solicitações similares.
25 EUROS PARA A MENINA 10 PARA A CASA
‘O Programa’, designação dada ao trabalho das mulheres que aliciavam clientes para pagar bebidas e manter relações sexuais, era pago no balcão, sendo que dos 35 euros cobrados pela descida aos quartos, 25 eram para a menina e dez para a casa.
As contas eram feitas no final da noite, mas as mulheres recebiam apenas senhas que indicavam quanto tinham ganhado. Nas bebidas, a divisão era feita a meias. “Mas o dinheiro vivo ficava nas mãos do Alfredo, através da Susana, que controlava tudo para ele”, explica uma prostituta ouvida pelo CM.
Nas folhas de caixa apreendidas pela PJ constam os movimentos de cada mulher. Assim, no dia 27 de Dezembro de 2002, a favor de Acácia Spirando foram registadas 11 descidas aos quartos, contabilizadas a 25 euros. No dia seguinte, a mesma mulher apenas teve creditados seis movimentos. Nos autos, Acácia faz várias revelações, como esta: “Num dia de bom movimento, por exemplo no Verão, quando os emigrantes estão em Portugal, cheguei a fazer 30 clientes numa noite, enquanto que noutras alturas, como no Inverno, fazia metade”.
Considerando que o ‘Palas Bar’ tinha 20 mulheres a trabalhar numa noite, durante o ano inteiro – a casa nunca fechava –, se cada mulher ‘fizesse’ cinco clientes por noite e conseguisse o consumo de cinco copos, as receitas diária, por pessoa, rendiam 112,5 euros. Multiplicando por 20 mulheres, a contabilidade final do dia era de 2250 euros. Livres de impostos, já que nada era referido às finanças.
AUDIÊNCIAS E PORMENORES DA REDE
SESSÕES
Estão agendadas 14 sessões do julgamento até dia 31 e já há testemunhas com notificações para os primeiros dias de Junho. Prevê-se que o julgamento termine nesse mês.
TESTEMUNHAS
Foram arroladas 115 testemunhas, entre as quais o juiz Felisberto Agostinho dos Santos e o advogado Jorge Rodrigues. A maioria das mulheres foi ouvida para memória futura.
ANGARIADAS
As mulheres eram trazidas do Brasil por uma rede de angariadores. Em Portugal eram confrontadas com uma dívida de 3500 euros referentes à viagem. Ficavam sem o passaporte.
CRONOLOGIA
2001
Alfredo Palas foi libertado após cumprir pena de dois anos de prisão por lenocínio (exploração e fomento da prostituição). No ano seguinte, terá ganho cerca 600 mil euros, que viriam a ser apreendidos pela PJ.
2003
Uma operação da PJ liberta 68 brasileiras, alegadamente sequestradas e sem liberdade de movimentos. Ouvidas em tribunal, são mandadas em liberdade.
2003
A Revista ‘Time’ fez capa com o caso de Bragança, chocou as mulheres de Bragança e supreendeu o País ao publicitar a agitada vida nocturna da cidade. Deu origem ao encerramento das principais casa de alterne da cidade.
2004
A PJ levou a cabo uma operação conjunta com as autoridades espanholas em outras casas junto da fronteira transmontana. A operação resultou na detenção do alegado cabecilha da rede, Alfredo Palas.
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