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Correio da Manhã

Portugal
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Depois da tempestade...

É quase inevitável que a taxa de desemprego ultrapasse, a médio prazo, a barreira psicológica dos dois dígitos.
29 de Junho de 2006 às 17:00
A eventual deslocalização da fábrica da GM da Azambuja, sendo lastimável era, todavia, previsível. Infelizmente, será provável que outras deslocalizações aconteçam neste sector, bem como em todos os outros onde reina a lógica da mão-de-obra intensiva e os custos de produção são incomensuravelmente superiores aos dos países do Leste Europeu, da Turquia e do Magreb e aos dos ‘tigres’ asiáticos.
Daí que todas as análises ligadas à evolução do desemprego têm que ser muito pessimistas. É, praticamente, inevitável que a taxa de desemprego ultrapasse, a médio prazo, a barreira psicológica dos dois dígitos.
Depois da saída das empresas do sector industrial, seguir-se-á a debandada dos serviços – fenómeno já há muito iniciado nos EUA, onde o simples preenchimento de um impresso de impostos já é, muitas vezes, feito por um contabilista na Índia ou na China.
Para muitos executivos americanos, a secretária que marca a consulta do dentista, o almoço de trabalho ou a hora do barbeiro, já é uma exótica asiática que nunca viram pessoalmente, mas a quem pagam, a cinco mil quilómetros de distância, um quarto do vencimento pago a quem o servia à porta de casa.
São estes os desafios de um ‘Admirável Mundo Novo’ para que não nos preparámos a tempo e horas.
Somado a tudo isto, estão aí as reestruturações das empresas públicas, igualmente geradoras de desemprego. Paradoxalmente estão aí, também, as restrições quantitativas dos apoios e direitos sociais. Medidas inadiáveis para salvar o essencial desses direitos? Talvez, mas vindas no momento mais inadequado e perigoso.
Muitos dos que vão ficar sem emprego ainda sobreviveriam com um mínimo de dignidade se mantivessem esses direitos. O que irá acontecer quando milhares de portugueses começarem a ultrapassar a barreira temporal que elimina o direito ao subsídio de desemprego? Como vão sobreviver os que tendo mais de 55 anos, que até há pouco podiam ter reforma antecipada, constatarem que têm hipóteses remotas de reintegrar o mercado de trabalho?
O quadro é negro e não interessa continuar a procurar culpados ou acreditar que é com meias medidas bem intencionadas que vamos lá. O crescimento económico é incipiente, a inflação engole os magros aumentos salariais, a despesa pública teima em não descer, a conflitualidade social não parará de aumentar, a insegurança, nomeadamente nas grandes cidades, será o passo seguinte desta escalada de desgraças.
O governo defende-se com a justeza ética das suas opções. A oposição divide-se entre a que renega responsabilidades recentes e se limita a colar-se à contestação, e a que, romanticamente, ainda acredita nos paradigmas estatizantes do século XIX e nos “amanhãs que cantam”.
Por este caminho e com estes métodos, para quem se virarão os portugueses lá para o Verão de 2007, quando, previsivelmente, as coisas começarem verdadeiramente a aquecer? Sinceramente, não sei, mas a democracia representativa tem sempre uma enorme vantagem. Gera rapidamente soluções, propostas e protagonistas que, poucos meses antes, pareciam impossíveis, quase revolucionárias. Só nos resta esperar…
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