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Correio da Manhã

Portugal
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Desalojados pelo fogo não podem ocupar casas novas

Três casas branquinhas captam o olhar imediato de quem chega ao Corgo de Baixo, em Anadia, onde há precisamente um ano, um grande incêndio destruiu quase por completo a aldeia. Estas habitações, levantadas com a solidariedade de muita gente, vão voltar a dar um tecto às dez pessoas que na altura ficaram desalojadas, mas que nunca quiseram abandonar o lugar.
18 de Setembro de 2006 às 00:00
No meio do que ainda resta das negras ruínas de currais e palheiros, as casas das três famílias já foram dadas como prontas “há mais de duas semanas”. “Desde essa altura que estão fechadas à chave e dizem que só há ordem para as entregar no próximo dia 23, quando cá vier o governador civil e o presidente da Câmara”, explica Ovídio Rodrigues, um dos aldeões.
Esta situação tem gerado descontentamento por parte das famílias que, segundo garantem, estão impedidas até de começar a limpar as casas. “Tive de fazer algum barulho para deixarem abrir os porões das casas. Temos a vindima para fazer e não havia onde pisar e guardar o vinho e acabaram por nos fazer a vontade”, explica Ovídeo.
Já António Neves, de 79 anos, nem aos porões pode aceder. “Continuo a usar as ruínas do palheiro para manter umas galinhas e guardar alguns produtos hortícolas.”
As habitações começaram a ser construídas em tempo recorde – no final do mês de Setembro do ano passado começaram os trabalhos de terraplanagem –, mas foram correndo ao sabor das dádivas e das verbas disponibilizadas pelo Governo (12 mil euros por cada casa), pela autarquia e pela Cáritas Diocesana, que deu a maioria dos 300 mil euros necessários para a totalidade das obras.
Segundo adiantou ao CM, o presidente da Câmara, Litério Marques, “é normal que as pessoas que ajudaram gostem de fazer uma cerimónia para o assinalar” e concluiu: “Não será grave esperar mais uns dias.”
O 'LADRÃO QUE LEVOU TUDO
Em escassas duas horas, na madrugada do dia 18 de Setembro de 2005, um incêndio, originado em Mortágua, consumiu a aldeia de Corgo de Baixo, concelho de Anadia, obrigando os bombeiros e a GNR a evacuar cerca de 15 moradores.
“Nunca vi um ladrão caminhar assim tanto e levar tudo à sua frente”, contava, na altura, o aldeão Acácio Estêvão, de 77 anos. Seis das sete casas da aldeia serrana foram devastadas, juntamente com muito gado, vinhas, palheiros e lagares de vinho.
No meio de tanta destruição três famílias – os Rodrigues, os Neves e os Almeida – “bateram o pé” e não quiseram abandonar a aldeia. Foi a sua obstinação que acabou por levar as autoridades a montar uma operação de reconstrução e o País a lançar-se em mais uma onda de solidariedade. “Recebemos de tudo um pouco, de todo o lado. Roupas e alimentos, mobílias e electrodomésticos e muitos materiais de construção”, adianta Ovídio Rodrigues.
As primeiras contas aos prejuízos apontavam para perto de um milhão de euros, dos quais 300 mil só para repor as habitações destruídas.
RECORDAÇÕES
MILAGRE
No meio da devastação deixada pelas chamas, a capela de S. Lourenço foi o único edifício a escapar ileso. O povo, crente, diz que foi o santo, padroeiro da aldeia, que não quis perder a ‘casa’. Outros, mais cépticos, justificam a situação com a ‘fortaleza’ das paredes.
SOLIDARIEDADE
Em menos de 48 horas, e quando a aldeia ainda fumegava, começaram a chegar à aldeia vários carros com ajuda para os desalojados. Roupas, alimentos e dinheiro foram os primeiros bens a ser entregues, mas muitos mais chegaram nos meses que se seguiram.
COLHEITAS
Na altura em que as chamas atacaram a aldeia decorriam as vindimas e a colheita do milho. Uma parte das espigas, que estava no campo, salvou-se, mas as que já estavam armazenadas, juntamente com lagares cheios de vinho foram reduzidas a cinzas.
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