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Correio da Manhã

Portugal
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Descontrolo hospitalar

As anteriores administrações do Hospital de Santa Maria, em Lisboa negligenciaram durante anos as denúncias de irregularidades feitas pelas entidades com competência para fiscalizar. Pior: não acataram as recomendações para um controlo de gestão económica e financeira e de segurança. O descalabro chegou ao ponto de desaparecerem muitos milhares de euros em produtos, à aceitação de concursos desvantajosos e até a que as caves do hospital servissem de lar a indigentes.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
O Hospital Santa Maria 'viveu durante anos em completo desgoverno', acusa a actual administração
O Hospital Santa Maria 'viveu durante anos em completo desgoverno', acusa a actual administração FOTO: Pedro Catarino
Adalberto Fernandes, que assumiu em 2005 o cargo de presidente do conselho de administração do Santa Maria, iniciou um trabalho de controlo dos serviços, em especial do aprovisionamento. Detectou crimes de roubo e tráfico. Não tardou a que começasse a receber por telefone ameaças de morte feitas por funcionários para si, seus familiares e outros membros da administração, tal como o CM noticiou no dia 5. O caso está a ser investigado pela PSP, Ministério Público e Inspecção-Geral da Saúde (IGS).
Adalberto Fernandes – que recusou dizer se as ameaças entretanto continuaram a ser feitas ou cessaram – garantiu que “encontrou documentos que indiciam irregularidades e falta de controlo”. A proveniência dos relatórios são da Inspecção-Geral da Saúde, das Finanças e ainda o Tribunal de Contas. “Foram feitas recomendações para controlar as irregularidades mas não foram corrigidas e não estão resolvidas.”
É o caso “dos concursos não negociados, em que se artificializam preços que podem não ser os melhores para o hospital”, continua o responsável.
Além dos prejuízos económicos que o hospital teve durante anos, a falta de segurança foi uma constante. Segundo noticiou ontem o semanário ‘Expresso’, uma família viveu 20 anos num dos pisos subterrâneos e a morgue foi usada para esconder artigos roubados por um bando. Ninguém deu por isso.
Fonte do Ministério da Saúde afirma não prestar declarações sobre o caso, “por se encontrar em investigação e em segredo de justiça”.
FALTA DE DINHEIRO PARA O ESSENCIAL
As contenções orçamentais são a justificação avançada ao CM pelo actual presidente do conselho de administração do Hospital de Santa Maria, Adalberto Fernandes, para as restrições aplicadas na segurança. “Este é um hospital muito grande e os custos gastos na segurança são muito elevados. Admito que as limitações orçamentais tenham condicionado a segurança.”
O mesmo responsável recusou, porém, a pronunciar-se sobre a falta de verba para aplicar neste sector, quando, por outro lado, o hospital perdia rios de dinheiro na má gestão económica e aprovava contratos desvantajosos com várias empresas fornecedoras de bens e serviços. “As administrações têm obrigação de fazer bom uso dos dinheiros públicos e evitar os desperdícios, mas não posso responder pelas anteriores administrações”, justificou-se Adalberto Fernandes.
A RETER
NOVO ARMAZÉM
O hospital está a construir um novo armazém de aprovisionamento, que vai acabar com o existente e que está disperso por várias salas, no piso -1. O sistema de controlo também vai ser alterado: passa a ser informatizado e substitui o controlo de entrada e saída de material que era feita em papel.
SEGURANÇA PESSOAL
A operação de controlo que está a ser realizada pela administração “não é uma caça às bruxas”, segundo as palavras do presidente do conselho de administração, mas obrigou a requerer segurança policial devido às ameaças recebidas.
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