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Correio da Manhã

Portugal
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DESEMPREGO TRAZ MAIS TUBERCULOSE

Os médicos temem que este ano se registe um aumento de casos de tuberculose. O receio é justificado pelo agravar das condições económicas e consequente aumento do desemprego e pobreza. E existem razões para alarme, pois já em 2002 registaram-se cerca de quatro mil novos casos, o que representa um aumento de dois por cento relativamente ao ano anterior.
23 de Março de 2003 às 00:03
A tuberculose é uma doença que se propaga por via respiratória
A tuberculose é uma doença que se propaga por via respiratória FOTO: Tiago Sousa Dias
“As actuais condições sócio-económicas levam-nos a olhar com especial cuidado e atenção para esta doença”, disse ao CM o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge.

A pobreza é uma das causas para a tuberculose devido “ao déficit nutricional que resulta em perda de peso, falta de vitaminas e proteínas e pelas próprias condições precárias de habitabilidade”, esclarece o coordenador nacional do Programa Nacional de Combate à Tuberculose, Fonseca Antunes.

Este responsável acrescentou que “não tem havido uma redução tranquilizadora nos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal” no que toca à taxa de incidência. A liderança destes três distritos marcadamente urbanos resulta de vários factores. “Maior concentração de população que vive em condições precárias, uso dos transportes públicos onde o ar não circula, maior percentagem de toxicodependentes, doentes com sida e imigrantes provenientes de países com índices elevados da doença” são algumas das razões apontadas pelo clínico, que destaca ainda o facto de “nas zonas rurais as pessoas aderirem melhor ao tratamento”.

Com o objectivo de definir a estratégia de intervenção em várias áreas no prazo de dez anos, a Direcção-Geral de Saúde anunciou ontem a reformulação do Programa Nacional de Luta contra a Tuberculose e a extinção da Comissão Nacional da Luta Contra a Tuberculose.

Para Mário Jorge esta última decisão “faz todo o sentido, porque as doenças devem ser abordadas em conjunto e não individualizadas. Excepto em doenças pouco conhecidas na fase de arranque do seu combate”.

USO DE LENÇO É FUNDAMENTAL

“O simples uso de um lenço que deve ser colocado frente à boca quando se tosse ou espirra é um dos gestos mais simples e eficaz para evitar a propagação da tuberculose, isto porque é uma doença que se propaga por via respiratória” disse ontem ao CM, Fonseca Antunes, coordenador nacional do Programa Nacional de Combate à Tuberculose. O mesmo responsável destacou que as pessoas devem privilegiar espaços ao ar-livre e, em casa, permitir a circulação do ar em detrimento de zonas permanentemente fechadas, aquecidas ou climatizadas. Fonseca Antunes acrescentou que o paciente deve submeter-se ao tratamento correcto e nunca o abandonar quando se sente melhor. Isto porque “ao fim de 15 dias de aplicado um tratamento correcto os vírus já não contagiam ninguém”, destacou.

DIFICULDADES

FALTA DE CAMAS

Raquel Duarte, secretária da Comissão da Tuberculose da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, apontou várias dificuldades para o cumprimento dos objectivos do Programa Nacional de Luta contra a Tuberculose. Entre elas a falta de vagas nos hospitais para os tratamentos longos e a ausência de apoio laboratorial no interior do país, indispensável à realização de diagnósticos.

VÍRUS RESISTENTES

No Hospital Pulido Valente, em Lisboa, estão internados alguns doentes que desenvolveram resistência aos antibióticos, único tratamento possível para combater a doença. Segundo o director do Serviço de Infecciologia do Hospital Pulido Valente, Jaime Pina, a solução apontada passa “pela adopção de alimentos que estimulem a própria capacidade do organismo para lutar contra o bacilo de Kock”.

INTERNAMENTO

O internamento compulsivo dos doentes que recusam o tratamento, embora esteja previsto na lei é de difícil aplicação, sublinhou Mário Jorge, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública.
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