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Correio da Manhã

Portugal

Desterrados do Ensino

São quatro casos, mas no País há cerca de três mil professores a trabalhar longe de casa. Todos os anos fazem as malas e arrancam para uma nova escola, a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Para trás ficam a família, os amigos, a estabilidade. Conheça as histórias de Margarida, Irene, Nuno e Ana.
13 de Janeiro de 2005 às 00:00
"A ANTIGUIDADE É AGORA PENALIZADA" (Professora reside em Leiria e está efectiva na Covilhã)
“Estamos a ser prejudicados por termos cumprido a Lei”, desabafa Margarida Neto, professora que integra o recém-criado Movimento de Quadro de Escola Desterrados (MQED), constituído por docentes que se dizem prejudicados pelo Decreto-Lei 35/2003, que alterou as prioridades para destacamento.
Margarida Neto, de 38 anos, professora há 10, pertence ao Quadro de Escola (QE) e está efectiva na C S do Tortosendo, Covilhã. Tentou tudo para ficar mais perto de Leiria, onde reside, mas não conseguiu porque, segundo afirma, foi ultrapassada por docentes do Quadro de Zona Pedagógica com piores notas e menos tempo de serviço. “Fui ultrapassada por professores do Quadro da Zona Pedagógica (QZP) que têm menos graduação do que eu. Isto não pode ser, é uma grande injustiça.”
Margarida Neto está revoltada com o Governo e não cala a revolta. “Com este comportamento, o Ministério da Educação está a minar a escola pública. A antiguidade é agora penalizada. Fui ultrapassada por 50 docentes do QZP que têm graduação inferior e por duas centenas com condições específicas.” Por mês, gasta 100 euros em viagens de autocarro e 175 em alojamento, mais água, luz e gás. “Ainda não sou mãe devido à minha instabilidade profissional.” A docente do grupo de Inglês/Alemão adianta que em Outubro tentou trocar de lugar com um colega da Sertã, mas “devido a ordens superiores”, não conseguiu.
QUILÓMETROS A SUBIR, EUROS A DESCER (Nuno dá aulas em V. P. Aguiar e tem as filhas em V. F. Xira)
Nuno Simões, professor de História, é natural de Vila Franca de Xira e há onze anos que deambula pelo País, a leccionar de escola em escola. Este ano está colocado na ES de Vila Pouca de Aguiar, a mais de 400 quilómetros de casa. Todos os fins-de-semana regressa à residência. Viagens longas, que desgastam mas que compensam pelo reencontro com a família.
“Em 11 anos de concursos onde fui obrigado a participar, fiquei sempre fora de casa, com prejuízo para a assistência à minha família, em especial às minhas duas filhas.” Nuno Simões afirma que, além da despesa com o alojamento e a alimentação, “superior a 500 euros”, há ainda que juntar as viagens. “São extremamente desgastantes e custam-me cerca de 100 euros por semana.”
Nuno Simões foi um dos milhares de professores afectados pela trapalhada no concurso de colocações. “Quando apareceram as primeiras listas na internet, telefonaram-me dizendo que estava colocado no Cacém, o que me encheu de alegria.”
Mas no dia seguinte veio a profunda desilusão. “Depois de colocar a bebé no infantário, ouvi na rádio que as listas tinham sido retiradas. Posteriormente acabei colocado em Vila Pouca.”
Por isso recorreu. “As pessoas que estavam atrás de mim foram colocadas em escolas para onde eu tinha concorrido, mas do recurso hierárquico nem sequer recebi resposta.”
DA AMADORA PARA O FAIAL (Irene arriscou e foi parar aos Açores)
“Quando a alternativa é o desemprego, compensa”. Irene Sá, da Amadora, é professora de Educação Visual e Educação Tecnológica na Secundária Manuel Arriaga, na Horta (Faial). Há cinco anos que dá aulas e este ano foi destacada para os Açores.
“Tenho andado a saltitar de escola em escola, sempre em substituição. Fui ficando na zona de Lisboa, mas este ano tive de arriscar e concorri para todo o País. Em dois dias tive de fazer a mala e vir para o Faial.”
Ainda não tem filhos – “é muito difícil com esta vida que levo” –, mas nem por isso deixa de sentir a “dureza” de estar a 1500 quilómetros de casa. “Longe da família e dos amigos custa muito, no início parecia que tinha vindo para o degredo.”
Irene paga 225 euros por um quarto com serventia de cozinha. “Não temos qualquer tipo de subsídios, os salários são iguais se estivermos perto de casa ou aqui. Somos necessários, mas depois até parece que só os professores é que são os interessados em estar longe de casa.”
Aos 30 anos. Irene aproveita a calma açoriana para “reflectir sobre as coisas e para realizar alguns projectos”, mas ainda não sabe se vai concorrer outra vez para as ilhas.
"FIQUEI LONGE DA FAMÍLIA" (Ana Paula dá aulas a 222 km de casa)
Ana Paula Pereira, professora efectiva na Escola Básica 2/3 de Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora, e residente em Ourém (Santarém), também não se conforma com a alteração das prioridades para destacamento. E está disposta a participar em diversas formas de luta para mostrar ao Ministério da Educação o descontentamento dos docentes desterrados.
“Há 12 anos que sou professora e, nos últimos dez, fiquei sempre perto de casa, em escolas situadas a 20 quilómetros. Era efectiva em Ferreira do Alentejo, mas nestes anos beneficiei da aproximação de residência. Agora, com a mudança das prioridades, fiquei efectiva em Reguengos e voltei à vida de contratada, apesar de ter melhor graduação do que outros professores.”
Esta docente de Português/ /Francês, de 38 anos, está actualmente separada por 222 quilómetros do marido e da filha.
“Nestes meses tem sido muito difícil esta separação da família, pois só consigo ir a casa ao fim-de-semana. Tinha a vida estabilizada e agora sobra muito pouco do ordenado ao fim do mês, porque tenho que pagar 150 euros do aluguer do quarto e o desgaste do carro. Dos 1250 euros que ganho, só poupo 300 euros.”
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