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Correio da Manhã

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DIABETES NÃO TRAVA CAMPEÃO

O remador inglês Steve Redgrave preparava-se para as Olimpíadas de Sydney quando, em 1997, lhe foi diagnosticada diabetes de tipo 1. Sentiu-se destroçado. A doença colocava um doloroso ponto final à sua carreira desportiva, pensou. Mas não foi assim - havia de conquistar a quinta medalha.
27 de Setembro de 2004 às 00:00
A diabetes, devidamente controlada, não impediu Steve Redgrave de ganhar a quinta medalha olímpica
A diabetes, devidamente controlada, não impediu Steve Redgrave de ganhar a quinta medalha olímpica FOTO: Pedro Catarino
O supercampeão esteve há dias em Lisboa. Aos 42 anos mantém uma excelente forma física e um sorriso pronto. Fala em tom sereno da doença, que aprendeu a controlar e não o impediu de realizar os sonhos. "A diabetes vive comigo. Não sou eu que vivo com a diabetes."
"SEDE IMENSA"
Começou a remar aos 14 anos. Aos 22 ganhou a primeira medalha de ouro, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Três outras se seguiram, em Seul, Barcelona e Atlanta. Em 1977, quando faltavam três anos para os Jogos Olímpicos de Sydney, Steve Redgrave dedicava-se aos treinos para competir na categoria Shell (tipo de embarcação) sem timoneiro. Um dia regressou a casa com imensa sede.
"Por mais líquidos que ingerisse, a vontade de beber não passava", lembra o ex-atleta, que não relacionou logo o estado sequioso com a possibilidade de diabetes, embora soubesse ser este um sintoma, pois o avô sofrera da doença. O que fez foi telefonar à mulher, médica. Ela marcou-lhe uma consulta no médico de família para o dia seguinte.
"O médico verificou que os níveis de açúcar no meu sangue eram elevadíssimos. Tomo insulina desde então", conta Steve Redgrave."Fiquei devastado." Antes de, no mesmo dia, consultar um especialista, convenceu-se do fim da sua carreira.
Não foi essa, porém, a informação que o especialista lhe deu. Muito pelo contrário. "Disse-me que não via qualquer motivo para eu abandonar os treinos", recorda Steve Redragve, ressalvando: "Também quis que eu percebesse bem as dificuldades que me esperavam". Médico e paciente aceitaram o desafio. A vida de Steve mudou, mas o desporto de alta competição continuou a fazer parte dela.
PENSAR EM DESISTIR
Steve regressou aos treinos. Mas sentia-se cansado, "sem energia, nem vontade". O que se compreende, atendendo a que o regime alimentar apropriado a um diabético de tipo 1 não se coaduna com o grau de esforço físico exigido a um atleta em preparação para os Jogos Olímpicos.
Acompanhado pelo seu médico, Steve Redgrave alterou a dieta, introduzindo-lhe alimentos muito calóricos, de maneira a restaurar a força, o que compensou com doses de insulina, injectadas entre oito a dez vezes por dia. Naquela altura chegava a ingerir seis mil calorias diárias.
"Quando falo disto com outros diabéticos, ficam escandalizados. Mas é claro que as condições de treino desportivo de alta competição nada têm a ver com as da vida quotidiana", afirma o ex-atleta habituado também a controlar sistematicamente os níveis de glicémia, de maneira a prever a insulina necessária.
A ideia de desistir passou pela cabeça de Steve Redgrave: "Uma vez, por exemplo, quando estava em estágio, na África do Sul, pensei que não era capaz. Telefonei até à minha mulher a dizer-lhe que não ia continuar." Mas continuou. Apresentou-se em Sydney. E ganhou a medalha de ouro em Shell 4 sem timoneiro.
"NÃO DESISTAM DE REALIZAR OS SONHOS"
Steve Redgrave, vencedor de cinco medalhas olímpicas, fala-nos da sua experiência.
Correio da Manhã - Tinha ganho quatro medalhas de ouro. Foi-lhe diagnosticada diabetes e, depois disso, ainda ganhou outra. Qual o significado desse feito?
Steve Redgrave - É muito satisfatório ter ganho como não diabético e depois como diabético. Estava à espera que me dissessem "não, não podes continuar". Tive a sorte de encontrar um médico que me convenceu exactamente do contrário e se mostrou entusiasmado. O mais difícil foram os treinos para os Jogos Olímpicos de Sydney, mas, depois, senti-me muito compensado.
- Está consciente que é um exemplo para outros diabéticos. Qual a mensagem que gostaria de transmitir-lhes?
- O que quero dizer aos diabéticos é que apreciem a vida, não parem de fazer o que gostam, não desistam de realizar os vossos sonhos.
- Mas, como sabe melhor do que ninguém, a doença traz limitações.
- Sim, mas também sei que é possível controlá-la sem desistir de fazer aquilo que nos agrada. É certo que há regras que têm de ser cumpridas. O mais importante, porém, é atingir um certo equilíbrio, a partir do conhecimento de nós mesmos e da diabetes.
- Quer explicar melhor?
- Tenho um estilo de vida que não é muito vulgar entre os diabéticos, a quem faz bem a rotina - sabem, por exemplo, que insulina tomar. Já eu viajo muito e, dentro de uma certa margem, como aquilo que quero. Continuo a injectar-me com insulina sempre que como e testo os meus níveis de açúcar várias vezes por dia. Preferia não injectar-me, mas este é o meu estilo de vida.
"CAPACIDADE DE LIDAR COM A DOENÇA"
"Os médicos orientam os pacientes diabéticos, mas são eles que, todos os dias, têm de gerir a própria doença", sublinha o secretário-geral da Associação Portuguesa de Diabetologia, Rui Duarte, salientando que Steve Redgrave constitui o exemplo da capacidade de autocontrolo da diabetes. O especialista refere-se, nomeadamente, ao facto de o ex-atleta medir com regularidade os seus níveis de açúcar no sangue.
Segundo Rui Duarte, uma pessoa com diabetes pode seguir os caminhos do desporto de alta competição.
O especialista nota, porém, que Steve Redgrave já era um supercampeão antes de lhe ser diagnosticada a doença. "Para um atleta de alta competição, que gosta de desporto e quer continuar a competir, nada é impossível, mas é difícil."
Steve Redgrave parece um doente atípico quando afirma comer aquilo que lhe apetece. "Sim, ele diz isso, mas também é um adulto consciente e sabe que, mais do que qualquer outra, uma pessoa com diabetes deve ter uma alimentação saudável. Isso não quer dizer que lhe seja absolutamente proibido um doce ou uma sobremesa."
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