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Correio da Manhã

Portugal
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Dinheiro nem chega para água

Uma “operação de risco” é como a Polícia de Segurança Pública (PSP) classifica a intervenção de técnicos da empresa pública de água, EPAL, com o objectivo de cortar as ligações fraudulentas de água no bairro da Boavista, em Lisboa.
15 de Abril de 2006 às 00:00
A família de Madalena Mascarenhas ficou sem água
A família de Madalena Mascarenhas ficou sem água FOTO: Natália Ferraz
Para garantir a segurança dos técnicos, a PSP tem por rotina deslocar para bairros problemáticos agentes do corpo de intervenção. Uma das mais recentes acções decorreu na Boavista, bairro marcado por forte pobreza.
“Chamada a prestar protecção aos técnicos da EPAL, a esquadra da PSP da Boavista, em Lisboa, decidiu que o acompanhamento deveria ser feito por elementos do corpo de intervenção”, disse ao CM, José Manuel Zenha, do departamento de comunicação da EPAL.
Segundo fonte do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, esta “solução é adoptada quando avaliada a missão e encontrada uma situação de risco ou perigo”.
“Durante a operação, os elementos do corpo de intervenção não tiveram, contudo, necessidade de sair da carrinha”, precisou a mesma fonte da EPAL.
Joaquim Medeiros, da comissão de moradores do bairro da Boavista, entende que “chamar o corpo de intervenção é uma solução exagerada”. “Os moradores são pobres, mas não são criminosos.”
Na análise dos consumos de água de Março, a EPAL detectou 45 situações possíveis de práticas fraudulentas. No local, verificou que 32 dos casos estavam em situação regular. Nas restantes 13 habitações foram destruídos os sistemas clandestinos de canalização.
Joaquim Medeiros disse que esta “é uma acção cega que não toma em conta a pobreza em que algumas das pessoas vivem”.
“No combate à pobreza não basta uma política de emprego”, disse recentemente em Leiria o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, padre Jardim Moreira, recordando que “Portugal tem dois milhões de pobres, mas muitos deles são empregados”.
FAMÍLIA POBRE DEVE MILHARES
Moradora na Rua Rainha Dona Catarina, Madalena Mascarenhas foi uma das pessoas a quem cortaram a água. “Trabalho nas limpezas, tenho sete filhos e o meu marido está em tratamentos por causa do álcool. Não tenho dinheiro para pagar a água”, disse.
“O dinheiro não chega, ganho 230 euros e o meu marido tem 128 euros de rendimento social de inserção. Devo estes mil euros de água, mais de dois mil euros da casa e também de luz, não tenho vergonha do dizer.”
POBREZA EM ALERTA
PIOR DA EUROPA
No seu último relatório sobre a Inclusão Social, a Comissão das Comunidades Europeias sublinha que Portugal, numa Europa a 15, é o país com a maior taxa de risco de pobreza: Dois milhões de habitantes.
SOBREENDIVIDAMENTO
A Comissão Europeia alerta que “o sobreendividamento engendra a perda de habitação. Fenómeno, que em Portugal, está frequentemente na origem dos sem-abrigo”.
ESTADO BELGA AJUDA
Para combater a pobreza por sobreendividamento, o Governo belga presta apoio financeiro aos consumidores de gás, água e electricidade.
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