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Correio da Manhã

Portugal
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Doentes insultados na Urgência

Tão cedo Rui Morais não vai comer camarão – passou a madrugada de ontem na Urgência do Hospital Amadora-Sintra à espera de ser assistido por causa de uma alergia provocada pelo marisco. Acabou por desistir ao fim de nove horas e meia, após assistir à troca de insultos entre doentes e profissionais da unidade de saúde, incapazes de lidar com a frustração de quem quer ajuda e não tem.
29 de Dezembro de 2005 às 00:00
'Espero não precisar ir ao hospital, pois perdi a noite e nem fui visto pelo médico', diz Rui Morais
'Espero não precisar ir ao hospital, pois perdi a noite e nem fui visto pelo médico', diz Rui Morais FOTO: Mariline Alves
Rui Morais, 41 anos, contou ao CM a noite surrealista. “Cheguei à Urgência pelas 00h40 e apanhei logo o primeiro susto – o painel electrónico informava que a senha verde [pouco urgente] tinha uma espera de quatro horas. Mas passaram mais de nove horas e nada. Vim-me embora às 09h30 da manhã e fui procurar uma farmácia. Outros desistiram e foram embora a meio da noite, dizendo que iam a outro hospital. Foi para esquecer.”
Outros doentes na sala, diz, não aguentaram dores e frustração – alguns estavam lá desde o meio-dia e eram já seis da manhã –, caindo no insulto. “Uma mulher com uns 40 e tal anos descontrolou-se e começou a gritar, dizia que queria ser atendida e chamou uns nomes feios aos profissionais de saúde.”
Do outro lado, a compreensão foi zero. Rui Morais ouve um auxiliar de acção médica, de farda verde, responder com ameaças. “Minha grande p... até te corto o pescoço.”
O chorrilho de injúrias continuou, segundo a testemunha, até que alguns funcionários tentaram acalmá-lo, mandando-o calar-se.
Rui Morais diz que não se lembrou de apresentar uma queixa no Livro de Reclamações. “Estava saturado e queria ver-me livre de tudo. Não me parece que alguém o tenha feito.”
HOSPITAL NÃO ABRE INQUÉRITO
O Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) não abriu nem vai abrir um inquérito para apurar as circunstâncias em que decorreu a madrugada naquele Serviço de Urgência. Segundo o assessor Paulo Barbosa, “é a palavra de um doente, que nem sequer ficou registada, não há conhecimento de queixa”. Ignorados estão, portanto, os insultos. Quanto à demora pela assistência, a justificação não é a falta de médicos.
“Prevendo que – à semelhança do que aconteceu em anos passados por esta altura – houvesse uma maior procura dos cuidados urgentes de saúde, o Hospital Fernando Fonseca mobilizou um total de 24 médicos para, em permanência e em exclusivo, dedicarem o seu atendimento à Urgência.”
A culpa é, adianta, do aumento de 33 por cento do número de doentes, que passou “dos 350 casos (de 12 a 16 de Dezembro) para os 490 nos últimos dias”.
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