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Correio da Manhã

Portugal
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É TRISTE NÃO TER DINHEIRO PARA PAGAR AS COMPRAS

Custa muito a Maria Natividade, de 41 anos, secretária nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), ter de pedir emprestado aos pais para pagar a conta do supermercado.
10 de Julho de 2002 às 00:02
“É triste não ter dinheiro para as compras. Sinto tristeza e impotência.” Sentimentos que a levaram ontem a recusar trabalho antes de ver “a cor do salário” do mês de Junho. Só após sete horas de concentração aos portões da empresa, Natividade e muitos outros trabalhadores das OGMA aceitaram voltar ao serviço. Garantiram-lhes que hoje teriam o ordenado e o subsídio de férias nas contas. Houve quem levantasse a voz pela continuação do protesto, mas foi mais forte a fé:“O dinheiro há-de lá estar.”

Precisam dele para pagar a prestação da casa, as contas da água, da luz, do telefone, as mesadas e as matrículas dos filhos, as compras no supermercado. “Nem o básico podemos já pagar”, constata Maria da Natividade Cabral, há 13 ao serviço das OGMA. Mais reservado, com os braços cruzados no peito, o marido, de 47 anos, programador de produção na empresa, limita-se a assentir.

Estão os dois à porta das OGMA desde as 9h00, quando, ao que parece de forma espontânea, os trabalhadores recusaram pegar ao serviço porque “sem dinheiro não há palhaço”, ouve-se dizer a uns e outros. “É uma sensação de impotência e de grande tristeza não ter maneira de pagar o supermercado”, confidencia Natividade Cabral, que teve de pedir emprestado aos pais para garantir pelo menos o indispensável.

Não cabe naquela definição a conta do telemóvel, nem as despesas da Margarida, a filha de 14 anos do casal, que, palavras da mãe, se sente limitada em relação aos colegas. “Eu tento que ela não sofra, mas ela sabe o que se passa e retrai-se em muitas despesas”, diz Natividade Cabral, que até para as fotografias da matrícula escolar da Margarida tem de pedir emprestado.

“Aqui estão 2.600 pessoas abandonadas à sua sorte”, atira então Mário Cabral, que rompe o silêncio para criticar o Governo - “está-se a lixar para nós” - e os responsáveis da empresa, “os que dizem que pagam os salários e depois fogem”.

Tudo para os empreiteiros

É hora do almoço. Os trabalhadores não arredam pé. Entre cigarros fumados depressa falam entre si da subcontratação de empresas externas, que tira trabalho às OGMA.

“Quando isto passou a sociedade anónima acabaram as secções de obras, de baterias e de carpintaria, entregues aos empreiteiros”, relata José Boné, técnico de manutenção de helicópteros, estranhando que falte serviço “com tantos aviões ingleses, alemães, holandeses...”

Hélder Vieira, do Sindicato dos Trabalhadores Civis das Forças Armadas, abeira-se do carro de som para dar notícia da reunião, ainda há pouco, com o director de Pessoal das OGMA, Fernando Rodrigues.

“O vencimento e o subsídio de férias vão estar na nossa conta na próxima 5ª feira”, informa, acrescentando ser esta “uma garantia pessoal do secretário de Estado da Defesa”, com quem falara ao telefone. “Ele diz que podemos consultar a Caixa Geral de Depósitos. É altura de desmobilizar e voltar ao trabalho.”

A maior parte dos trabalhadores não é da mesma opinião. Do cimo dos portões, onde estão encavalitados os mais jovens, caem insultos. Nada a fazer. Não desmobilizarão. Organiza-se pois um grupo que ruma à Caixa Geral de Depósitos.

À procura do salário

O grupo regressa às 15h20. Parece que sim, que há dinheiro na conta da Caixa. Cinco minutos depois parece que não. “O gajo que trata da conta das oficinas está incontactável. Tem o telemóvel nas chamadas”, relata ao CM um dos elementos da delegação. “O funcionário da dependência de Alverca disse-nos que é quase garantido que pagam, mas não pode dizer a certeza, a certeza”, completa.

Uma hora depois os trabalhadores aceitam desmobilizar. Diz-lhes o motorista das OGMA que levou disquete, que permite o lançamento dos salários, à sede da Caixa em Lisboa. No dia seguinte terão o dinheiro nas contas. “Veremos”, comentam. Natividade tem esperança.

“A situação inacreditável” deixada pelo anterior Governo

O ministro da Defesa, Paulo Portas, lamentou ontem o "estado inacreditável" em que o anterior governo deixou as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), que acumularam um passivo superior a 32 milhões de contos. Paulo Portas, que anunciou um "adiantamento de tesouraria" para o pagamento dos salários de Junho e subsídio de férias aos trabalhadores das OGMA, manifestou ainda estranheza pelo facto de o governo socialista ter admitido no ano passado "mais de 600 trabalhadores" na empresa.

À entrada para o debate parlamentar sobre "o estado da Nação", o ministro da Defesa explicou ainda que a empresa será submetida a uma reestruturação, embora escusando-se a especificar pormenores sobre esta operação. O "justo e merecido" adiantamento de tesouraria agora efectuado (de cerca de um milhão de contos, segundo fonte do Ministério da Defesa), explicou Paulo Portas, não resolve o problema de fundo da empresa.

Os cerca de 2.100 trabalhadores das OGMA têm manifestado nos últimos dias a sua indignação por não terem recebido a 26 de Junho o salário desse mês acrescido do subsídio de férias. Na segunda-feira, a administração da empresa tinha apenas garantido para esta semana o adiantamento a cada trabalhador de uma verba de 500 euros (100 contos) sem especificar quando receberiam o remanescente do salário e o respectivo subsídio de férias.
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