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Correio da Manhã

Portugal
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“É um milagre ainda estar vivo”

Deitado numa cama do Hospital de São João há quase sete meses, Daniel Neves, de 30 anos, o trabalhador ferido a 8 de Outubro do ano passado durante a explosão na zona industrial de Vila do Conde, está a recuperar lentamente. O homem, que ficou com 85 por cento do corpo queimado, foi já submetido a 10 cirurgias. A próxima será terça-feira, dia 4 de Maio.
29 de Abril de 2010 às 00:30
Mafalda e o filho Martim têm apoiado Daniel na recuperação
Mafalda e o filho Martim têm apoiado Daniel na recuperação FOTO: Joana Neves Correia

"O Daniel está muito melhor, já não corre perigo de vida. Mas não se sabe quando vai ter alta. Vai ser novamente operado porque tem uma infecção nas coxas", explicou ao CM Mafalda, mulher do ferido. "É um milagre ainda estar vivo", acrescenta, comovida.

Desde que foi internado que os médicos disseram a Mafalda que o marido tinha poucas hipóteses de sobreviver. "No primeiro dia disseram-me logo que ele ia morrer, que era uma questão de horas. A cada operação repetem isso. Nunca temi que morresse. Tive sempre esperança", contou a esposa.

Os meses que se seguiram ao acidente foram muito complicados para o casal, com um filho de dois anos. Daniel foi submetido a tratamentos dolorosos. Chegou a rejeitar a esposa e a ter delírios. "Tem sido muito difícil. Há três semanas entrei com o meu filho pela primeira vez na ala onde ele está. Só o víamos pelo espelho. Não parámos de chorar", disse. Além do estado de saúde do marido, Mafalda ainda enfrenta problemas financeiros: "O Daniel recebe pouco de baixa e o meu salário é pequeno. As companhias de seguros nunca ligaram para falar das indemnizações".

PORMENORES

TRANSFERIDO

Daniel será transferido em breve para a Casa de Saúde da Boavista, por ordem das Companhias de Seguros. Desde então, o homem entrou em depressão.

DESPEDIU-SE

Devido aos diversos entraves que o patrão lhe colocava, por causa do acompanhamento ao marido, Mafalda pediu há dias a demissão. A mulher recebe todos os meses um cabaz de alimentos dado pela Segurança Social.

DIFICULDADES

Logo após o acidente, Mafalda teve muitas dificuldades em regressar à casa onde o casal vivia, na Maia. "Sentia a respiração e a presença dele em todo o lado", disse a mulher.

CICLISTA

Até 1998, Daniel foi uma das promessas do ciclismo nacional. A resistência física que tinha está a ajudar muito na recuperação.

VÍTIMA RECORDA EXPLOSÃO

Sete meses depois, Daniel ainda recorda ao pormenor o momento em que viu explodir o camião conduzido pelo colega Albino, a única vítima mortal do acidente, e contou-o à mulher. "Ele contornou a carrinha para entrar e passou pelos colegas. Um deles perguntou, assustado, o que era aquilo. O Daniel olhou para trás e viu uma enorme onda de calor. Correu, rebolou no chão e tentou apagar as chamas", contou Mafalda. O trabalhador acabou por pedir ajuda a um homem que estava num armazém. "O senhor queria ajudá-lo e tentou apagar as chamas com um extintor. Achamos que isso é que piorou o estado de saúde de Daniel", explicou a mulher. O trabalhador esperou ainda 45 minutos por uma ambulância: "Devido aos protocolos existentes, a viatura que estava no local recusou-se a assisti-lo".

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