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Correio da Manhã

Portugal
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Ela diz que não nos quer deixar

Luís Gomes, pai afectivo de Esmeralda Porto, continua a acreditar que a menina, que o tribunal decidiu entregar ao pai biológico, Baltazar Nunes, vai continuar no seio da sua família. Sublinha que só assim estarão defendidos os direitos da criança. Ao longo deste processo, o pior momento foi ter estado preso durante cinco meses.
2 de Fevereiro de 2008 às 00:30
Correio da Manhã – Que balanço faz do percurso que fez na luta pela Esmeralda?
Luís Gomes – Penso que tudo vale a pena enquanto a menina estiver connosco. Eu e a minha família fizemos imensos sacrifícios, passámos por muitos momentos difíceis, mas ela ainda está connosco. Por isso, até ao momento, tudo valeu a pena.
– Qual foi o momento mais difícil que teve de ultrapassar?
– Estar detido foi péssimo. Não tanto por estar privado da minha liberdade mas por estar privado do contacto com a minha família.
– Numa perspectiva de futuro, como vê o desenvolvimento do processo?
– Quero acreditar que vai haver uma decisão que defenda o verdadeiro interesse da criança e não os interesses dos adultos. E o melhor para ela é ficar na família que conhece e em que está integrada.
– Em que condições está disposto a entregar a menina ao pai biológico, Baltazar Nunes?
– Nós só a entregaremos porque é uma decisão do tribunal.
– Se e quando isso acontecer, vão continuar a querer vê-la e estar com ela?
– Eu continuo a acreditar que ela não vai sair do nosso seio familiar. Acreditamos que isso é defender os seus interesses e é, por isso, que continuaremos a lutar.
– Em que condições seria possível chegar a um acordo com Baltazar Nunes?
– Poderia haver um acordo desde que fosse sempre, e acima de tudo, defendido o interesse da criança. Como dizem os técnicos do Departamento de Pedopsiquiatria de Coimbra, é importante que ela possa conviver com outras estruturas que não a nossa, mas que nunca saia do seio familiar em que está inserida. Aliás, ela própria diz que não quer deixar o pai Luís e a mãe Adelina.
– Como encarou o facto de os pedopsiquiatras de Coimbra terem abandonado o caso?
– Não nos viraram as costas, apenas disseram não estar dispostos a empurrar a criança para um precipício. Não nos fecharam as portas, aliás sempre nos disseram que as portas estavam abertas. Mas demitiram-se da função de a preparar para uma situação com a qual não concordam e que consideram prejudicial.
– Desde Novembro, a menina nunca mais foi acompanhada pelos técnicos de pedopsiquiatria de Coimbra?
– Não, nunca mais a acompanharam. Mas o Tribunal de Torres Novas notificou o departamento para continuar a acompanhar a menor e penso que vamos retomar as consultas em breve.
– A falta de apoio psicológico teve consequências no seu comportamento?
– Fez-lhe claramente falta. Ela tem uma relação muito boa com a psicóloga, pergunta muitas vezes por ela e diz que quer ir vê-la. Acho que é muito bom continuar a haver apoio psicológico, não só para ela mas para todos nós.
– Considera que o prazo de transição até à entrega da menina ao pai biológico devia ser alargado, devido a esta falta de acompanhamento?
– Nós não concordamos com esta situação transitória – tanto é que a estamos a contestar. Por isso, não se trata de alargar ou não.
"UMA CRIANÇA NÃO TEM PREÇO"
CM – Quanto já gastou com o processo?
L.G. – Cerca de 40 mil euros, pagos com muito esforço e com a ajuda de familiares.
– Terá ainda de pagar uma indemnização de 30 mil euros a Baltazar Nunes. Como vai ser?
– Não concordo com a indemnização, mas terei de a pagar. O valor é muito alto e estamos com esperança nas receitas do concerto.
– E se não conseguir?
– Acreditamos que sim, mas se não conseguirmos teremos de vender bens, nomeadamente a casa. Se tiver de ser, não olhamos para trás. Se eu estive disposto a ser preso por ela, estou disposto a muito mais, a mudar a minha vida se for preciso. Uma criança não tem preço.
– A aproximação do julgamento da sua mulher está de algum modo a perturbar a família?
– Com este processo, aprendemos a viver uma coisa de cada vez. Agora, estamos concentrados em pagar a indemnização, depois virá o julgamento.
PERFIL
Luís Gomes nasceu a 22 de Junho de 1967. Entrou para o Exército em Setembro de 1988, em 1991 foi promovido a 2.º sargento e três anos depois a 1.º sargento. Em Dezembro de 2007 foi promovido a sargento-ajudante. Casou com Adelina Lagarto em 1995 e em 2002 acolheu Esmeralda Porto na sua família. Gosta de música dos anos 80.
SOLIDÁRIOS
Um grupo de artistas do Ribatejo, liderado por José Cid, promoveu ontem à noite, no Palácio dos Desportos de Torres Novas, um espectáculo de solidariedade com o objectivo de angariar receitas para ajudar a pagar a indemnização devida a Baltazar Nunes. Luís Gomes foi dos primeiros a chegar e recebeu muitos aplausos.
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