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Correio da Manhã

Portugal
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Elas é que assaltavam

A detenção dos 12 assaltantes chegou a estar planeada para terça-feira, mas foi abortada por faltarem alguns. Mas anteontem à tarde, com os suspeitos numa autocaravana a acelerarem a caminho de Espanha, os elementos da PSP decidiram agir.
30 de Março de 2007 às 00:00
Elas é que assaltavam
Elas é que assaltavam FOTO: Ricardo Cabral
A viatura foi interceptada à saída de Elvas e ao mesmo tempo foram feitas buscas a seis residências nas zonas da Moita e do Pinhal Novo. Mais de um ano depois do início da investigação foi desmantelado um grupo criminoso responsável por dezenas de assaltos a casas em todo o País cujas operacionais eram mulheres.
Foram muitos meses de investigação “a reunir matéria de prova”. O trabalho “não foi nada fácil porque o grupo tinha grande mobilidade”, explicou uma fonte policial da divisão do Barreiro, afirmando que havia uma grande entrada e saída de membros.
Ontem de manhã, a maioria dos agentes ainda não tinha ido à cama. E o dia prometia ser longo com a revista às viaturas e os exames aos sacos de material apreendidos. As primeiras buscas, feitas durante a noite, permitiram à polícia encontrar peças de ouro e algumas das ferramentas utilizadas pelos assaltantes para forçarem a entrada nas residências: pés-de-cabra, chaves de fendas e escopros. Isto se as portas estivessem trancadas. Segundo fonte da PSP, se as portas estivessem apenas no trinco “bastava uma radiografia ou o fundo de um garrafão de plástico”. “A maioria das casas não apresentava sinais de arrombamento.”
De acordo com a mesma fonte, os indícios recolhidos permitiram à PSP traçar um “retrato fiel” da actuação do grupo. Os homens faziam o planeamento, a logística e arrendavam os apartamentos onde estabeleciam base. As mulheres entravam nos prédios e tocavam a todas as campainhas a pedir esmola.
Quando ninguém atendia, decidiam entrar. “Eram muito selectivas, procurando apenas jóias, ouro e pequenos objectos, como telemóveis ou consolas.” Nada que levantasse suspeitas na hora de abandonar o local. Se no início as mulheres eram transportadas pelos homens, nos últimos tempos, já depois de adquirirem carros usados, eram elas mesmas que conduziam até aos bairros.
Foi uma dessas incursões, em Setembro, na zona da Moita, que pôs em alerta a PSP local. A investigação começou com duas residências assaltadas, mas foi ganhando volume. O mesmo grupo já tinha estado na mira das autoridades, em Santarém, mas deixou a cidade assim que o cerco apertou.
“É uma das características: esgotam uma zona e abandonam-na”, diz a fonte. Por outro lado, algumas das mulheres detidas anteontem já tinham sido interceptadas. As cinco suspeitas e os três homens vão ser presentes hoje ao Tribunal da Moita e uma menor, que a polícia suspeita ter documentos falsos e mais de 16 anos, vai ao Tribunal do Barreiro. Os restantes quatro estão, para já, em liberdade.
DESCOBRIR A NACIONALIDADE
Foi difícil identificar a nacionalidade dos homens e mulheres detidos uma vez que tanto uns como outros tinham consigo vários documentos de identidade, inclusive autorizações de residência em Itália, que não especificavam a nacionalidade. No início as autoridades suspeitaram estar na presença de cidadãos da ex-Jugoslávia e da Roménia. Contudo, de acordo com fonte policial, “através dos seguros das autocaravanas, dos passaportes e de alguma correspondência que traziam já aberta pudemos constatar que se tratava de cidadãos croatas e jugoslavos.” Os homens e mulheres que constituíam o grupo utilizavam alguma documentação falsificada mas sempre com o seu nome verdadeiro, o que permitiu às autoridades saber a morada das suas residências.
TINHAM 22 CRIANÇAS
O grupo era composto por duas famílias com 22 crianças com idades compreendidas entre os seis meses e os 15 anos.
De acordo com as autoridades, “a parte mais delicada” da operação foi a de “conduzir e instalar em instituições” os menores. Das 22 crianças, seis acompanharam os quatro adultos que foram libertados por terem chegado à pouco tempo ao País e não existirem provas de que tenham efectuado assaltos. Outras duas, por se tratar de bebés de colo, estão com as mães na cadeia. A polícia conta agora com a ajuda da comissão de protecção de crianças e jovens em risco no encaminhamento das restantes crianças para várias instituições.
Falta ainda apurar se a menor detida tem menos 16 anos porque este argumento é usado frequentemente pelas praticantes destes crimes. Usam documentos falsos que as identificam como menores porque “estão muito bem informadas sobre a lei portuguesa”, afirmou fonte policial, e sabem que “até aos 16 anos não são detidas”.
PORMENORES
RESIDÊNCIAS
Apesar de se deslocarem em autocaravanas, os membros do grupo alugavam casas em determinadas localidades. Essas residências serviam de base à actividade criminosa que normal mente se processava fora da área de residência.
FURTOS
No início os furtos eram praticados essencialmente em prédios, facto que levou a polícia a pensar que o faziam por serem locais mais resguardados. Contudo, mais tarde, talvez por se sentirem mais seguros, começaram a actuar em vivendas.
MILHARES DE EUROS
De acordo com as autoridades este grupo terá efectuado dezenas de assaltos. A sua actuação terá causado danos materiais de “milhares de euros” a muitas pessoas. Mas “as provas reunidas devem ser suficientes para um processo com conclusão feliz”.
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