"Ele nunca tentou atropelar um militar. É verdade que o Ricardo fugiu à operação stop, mas eles apanharam-nos e meteram-nos o carro à frente. Eu quis sair do carro, mas ele fez imediatamente marcha-atrás", contou ao CM Ercínio Carneiro, de 48 anos, que anteontem seguia ao lado do condutor de 24 anos que não respeitou a ordem para parar, na rotunda onde termina a A43, em Gondomar. Na sequência da perseguição, o condutor foi baleado na cabeça.
"De repente, ouvi dois disparos e pus a cabeça para baixo. Quando olhei outra vez já o vi com um tiro na cabeça", acrescentou.
Ercínio desmente a versão da GNR, em que foi relatado que o militar de 30 anos disparou quando se sentiu em perigo de ser atropelado pelasegundavez."Issonunca aconteceu. Eles estavam à nossa frente e não nos deixavam passar e por isso o Ricardo fez marcha-atrás. Não sei por que dispararam, mas posso dizer que o tiro entrou pelo vidro da frente e que não houve ricochete", acrescentou.
Atestemunhadissequetinha apanhado boleia de Ricardo metros antes de começar a perseguição. Ercínio justificou a fuga por o Peugeut 206 não ter seguro nem inspecção feita.
"É verdade que ele fez menção de parar e até pôs o pisca para encostar. Mas depois deu-lhe qualquer coisa que não sei justificar. Foi a reacção dele. Quando a polícia ia a chegar ele arrancou. Estava sempreadizerparaele parar,maseledisse quenãoqueriaser apanhado",dissea testemunha.
Ercínioafirmouque após ter ouvido o primeirodisparopôsa cabeça para baixo do tabelier."Ouvitrês disparos.Quando embatemos no muro, olhei para o lado e vi-o com um tiro na cabeça ", sublinhou.
Ersínio Carneiro disse ainda que poucos minutos depois chegaram reforços e que muitos dos moradores assistiram aos acontecimentos. Aconfusão foi muita. "Quandoseaperceberamdagravidade da situação, os militares ficaram à toa, semsaberoquefazer", diz Ercínio. Foi ouvido pela Judiciária, a quem contou a sua versão.
Ricardo Sousa permanecia ontem internado no Hospital S. João, no Porto, sendo o seu estado de saúde "crítico."
AUTOR DOS DISPAROS SUSPENSO
O militar de 30 anos, que baleou o jovem fugitivo, está dispensado de prestar serviço na BT do Porto nos próximos dias, mas recusou o acompanhamento psicológico que lhe foi oferecido pela Guarda. Segundo o porta-voz da GNR, Tenente Coronel Costa Lima, "trata-se de um guarda muito bem referenciado pelos comandantes e colegas, com dez anos de experiência. Não recai sobre ele nenhuma acusação formal, mas não está a trabalhar para sua própria salvaguarda".
Entretanto, foi aberto um inquérito a cargo do Ministério Público de Gondomar e um processo interno de averiguações, cujas conclusões, segundo o Tenente Coronel Costa Lima, servirão de exemplo e até de manual de estudo na formação de novos militares. Todos os vestígios do incidente, incluindo as cápsulas das quatro munições, foram recolhidos na hora pelos militares da BT. O carro foi apreendido.
PORMENORES
Algemado
Ercínio disse que depois de ter sido algemado, se não fosse a ajuda de um morador – que alertou os militares – teria ficado com elas nas mãos.
Construção civil
Ercínio trabalha na construção civil em Espanha. Ricardo terminou contrato há dias com uma empresa da Maia.
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