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Correio da Manhã

Portugal
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EM BUSCA DA NEVE

A neve há-de ser "fofinha", sem que para isso tenha que dispender "força" na composição de uma bola. Sandro Silva, a criança açoriana de 10 anos, cujo sonho de ver a neve o Correio da Manhã vai concretizar, ensaia com as mãos pequenas os gestos que deseja realizar em breve.
28 de Dezembro de 2002 às 00:00
Quem lhe disse que a neve era assim, ao mesmo tempo fofa e resistente, foi o colega de escola Andrew, filho de norte-americanos radicados na ilha de S. Miguel. Mas o Sandro quer vê-la com os próprios olhos e senti-la nas mãos, ou melhor, "nas luvas, porque deve ser muito, muito fria", imagina, já a caminho da Serra da Estrela.

A viagem em direcção à neve começou ontem muito cedo. O Sandro e a família acordaram às 06h30 em Ponta Delgada, mais uma hora no Continente, para evitar as pressas. O avião da companhia aérea açoriana Sata aterrou no Aeroporto da Portela pouco antes do meio-dia.

Com a mão direita na do pai, José Silva, e a esquerda na da mãe, Sara Silva - e na dianteira o irmão de 15 anos, Marlon, cuidando de empurrar o carrinho da bagagem –, Sandro trazia um sorriso de traquina nos lábios.

O sorriso ficou ainda mais travesso quando disse que andar de avião não era, de modo algum, novidade para ele. Com efeito, devido à doença rara de que sofre – osteogénese imperfeita – já veio, por várias vezes, fazer tratamentos ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Isto, sem falar, pelo menos, daquela viagem ao Canadá. Mais tarde, Sandro explicará que, nessa altura, era Verão e que, por isso, não viu sinal da neve e sinal dela, nos Açores, só no Pico, mas "é muito ‘poucochinha’ e nunca lá fui".

A caminho da Serra da Estrela, Sandro, uma criança de raciocínio e discurso avançados para a idade, não pára de fazer perguntas. "Os bonecos de neve são assim bem feitinhos ou todos desengonçados?" e "Como e que pode haver neve e sol ao mesmo tempo?", são apenas dois exemplos.

Um gorro verde, com uma borla na cabeça e o Mickey, o Pateta e o Pato Donald pespegados na frente foi a prenda que, ainda em Lisboa, através do CM, Sandro Silva recebeu da sua amiga Fátima, que vive em Coimbra, e com quem, durante a viagem até ao Fundão, falou ao telemóvel, tentando recolher o máximo de informações sobre o estado do tempo na Serra, onde, para alegria de Sandro, está a nevar.

SUSANA MARIA ESCREVEU-LHE UMA CARTA

"Olha, a letra é parecida com a tua: assim, gorda. Às vezes ocupa três linhas, que eu bem sei", disse-lhe a mãe. Mas quando o menino começou a ler a carta, enviada por Susana Maria, de Maceira Lis, Leiria, viu que não era só a letra a aproximá-los. A remetente da carta também sofre de osteogénese imperfeita e relata em três folhas experiências que Sandro reconhece com facilidade.

Na carta, Susana escreve: "Bastava tropeçar numa pedra e era logo um osso partido". Sandro compreende bem o que tal significa, mas, querendo animar a mãe, nota: "Tchi!! Mas esta senhora ainda é pior do que eu!" Susana pede-lhe que lhe escreva de volta. Ele diz que sim, vai fazê-lo, com a sua letra redonda, capaz de saltar as linhas.

O QUE É A OSTEOGÉNESE IMPERFEITA?

A osteogénese imperfeita, também conhecida por doença dos "ossos de vidro" é um distúrbio congénito que provoca extrema fragilidade nos ossos, facilitando as fracturas a partir de pequenos traumas. Daí a necessidade de frequentes intervenções cirúrgicas em doentes como Sandro. Ao mesmo tempo, devido à fragilidade óssea, esta patologia acaba por ter efeitos em todo o organismo humano, impedindo o crescimento normal. No desenvolvimento da ciência genética parece residir a única esperança de cura da osteogénese imperfeita.
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