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Correio da Manhã

Portugal
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Empresário vai investir na Cova da Moura

Dá pelo nome de Norberto Santos e arrisca-se a ser uma das primeiras pessoas a investir num dos bairros mais problemáticos do País. O empresário madeirense está empenhado em instalar uma unidade fabril de enfardamento e triagem de papel, cartão e plástico na Cova da Moura. Por isso, subiu a encosta e foi à descoberta do bairro.
20 de Janeiro de 2007 às 00:00
Com muita gente nova no desemprego, a fábrica quer dar outra imagem à Cova da Moura
Com muita gente nova no desemprego, a fábrica quer dar outra imagem à Cova da Moura FOTO: Vitor Mota
No início do passeio, as dúvidas eram muitas e a curiosidade fazia Norberto Santos disparar pergunta atrás de pergunta. O guia da visita foi Silvino Furtado, um dos membros do Moinho da Juventude, a associação local a ajudar o empresário a encontrar a localização para a instalação da fábrica e definir a mão-de-obra disponível para entrar no projecto.
“Porque é que as pessoas têm tanto medo de aqui entrar?”, perguntou quase de imediato o investidor a Silvino Furtado. “Acho que é um estigma”, responde o jovem, acrescentando: “Claro que o bairro tem problemas, não podemos fugir a isso, mas só passa a imagem de que é um bairro violento e com droga e isso não acontece na realidade.”
Já na encosta, Norberto Santos desabafa: “Esta visita está a surpreender-me, porque ainda não vi barracas. O que eu vejo é um bairro bem construído, sem problemas, com saneamento e electricidade.”
O empresário reconhece que só conhecia o bairro “pela negativa”, por isso ficou satisfeito ao não ver “nenhum assalto, más condições ou crianças a pedir esmola”, afirmou no fim do percurso. Falta apenas autorização da Câmara da Amadora para a instalação. “Uma vez aprovada, consigo pôr a fábrica a funcionar em três meses”, garante Norberto Santos.
“E porquê investir na Cova da Moura?”, pode perguntar-se. A resposta pronta: “Apesar de ser um bairro problemático, esta unidade pode fazer de alavanca para trazer outros projectos.” E acrescenta: “É importante haver projectos que dêem credibilidade à Cova da Moura.
A ideia do investidor é simples e passa por “criar cerca de 50 empregos”. Numa primeira fase, Norberto Santos prevê que surjam oito postos fixos na unidade fabril, sendo os restantes empregos distribuídos pela recolha e triagem dos materiais. Para isso, vai fazer “um investimento de 100 milhões de euros”, o suficiente para equipar a unidade fabril com as máquinas necessárias e adquirir veículos para a recolha. Se a empresa crescer, o objectivo é aumentar a frota.
“Temos aqui muita mão-de-obra e a recolha pode ajudar financeiramente esta gente”, diz o empresário. Até porque “este é o sítio onde melhor se enquadram as características do trabalho que queremos desenvolver, pois há muito desemprego”.
Para Silvino Furtado, a instalação da fábrica na Cova da Moura “pode ajudar a dar outra imagem ao bairro”. “O emprego é sempre bem-vindo.”
RETRATO DO BAIRRO
1 - LOCALIZAÇÃO
Situa-se na área Oriental do concelho da Amadora, paredes-meias com Benfica. É partilhado pelas freguesias da Damaia e da Buraca.
2 - HABITANTES
Nos início dos anos 80, não tinha mais de mil habitantes. Hoje, as estimativas apontam para mais de oito mil. É um bairro muito jovem, onde 22 por cento da população tem menos de 14 anos e quase 45 por cento não ultrapassa os 24 anos. Os maiores de 64 anos representam apenas sete por cento da população.
3 - HABITAÇÃO
Possui cerca de 85 casas por hectare e uma densidade populacional de 306 habitantes por hectare.
4 - HABILITAÇÕES LITERÁRIAS
As habilitações literárias são, em regra, baixas, não ultrapassando o 3.º ciclo do Ensino Básico. Poucos são os jovens que prosseguem os estudos, havendo elevado nível de abandono e insucesso escolar.
5 - HISTÓRIA
O bairro da Cova da Moura teve a sua origem no pós-25 de Abril, com o regresso dos retornados das ex-colónias. Na segunda metade da década de 70 e início dos anos 80, houve uma intensificação da ocupação dos terrenos por parte de famílias oriundas de Cabo Verde, associada ao fenómeno das redes sociais de imigrantes. A construção no bairro é totalmente ilegal.
RECUPERAÇÃO
BAIRROS CRÍTICOS
José Sócrates foi o primeiro a dar a cara pela ‘Iniciativa Bairros Críticos’, o projecto com o qual o Governo quer ‘salvar’ os bairros problemáticos. Cova da Moura, na Amadora, Vale da Amoreira, na Moita, e Lagarteiro, no Porto, serão alvo das intervenções.
PLANO DE ACÇÃO
Será feito o levantamento das habitações, melhorada a circulação e reforçada a segurança no bairro. Criar a marca ‘Cova da Moura’ é outra das ideias, através da dinamização do comércio local.
RAP DA DISCÓRDIA
Na apresentação do plano de reabilitação da Cova da Moura, o presidente da câmara e Governo foram surpreendidos por um rap discordante na Associação Moinho da Juventude, que criticava a autarquia.
PERFIL
Norberto Santos tem 65 anos, é casado e pai de três filhos. Natural do Funchal, na Madeira, viveu durante 20 anos em Moçambique. Considera-se um autodidacta, com empresas na área da recolha e tratamento de lixo. Foi candidato à Câmara Municipal do Funchal e concorreu ao Parlamento Europeu pelo Movimento Partido da Terra. Votos teve poucos, mas, sublinha, o mais importante foi a troca de ideias. “O Movimento não elege, transmite mensagens”, diz.
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