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Correio da Manhã

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Escola antes do tempo pode prejudicar

Agrupar as crianças de acordo com o ano em que nasceram é uma necessidade do sistema escolar. No entanto, é normal que os pais se questionem sobre o que fazer quando os seus filhos, graças a essa ‘fronteira’ estabelecida, vão para a escola primária com apenas cinco anos de idade. Um estudo realizado pela Universidade de Alberta, no Canadá, revela que a melhor opção é atrasar um ano se a criança correr o risco de ser a mais jovem da turma.
7 de Março de 2005 às 00:00
“O meu filho já vai para a escola”. A frase, em tom de orgulho, pode sair da boca de qualquer pai ou mãe. É que, de facto, a entrada para a escola é um dos marcos mais importantes na vida de uma criança. Mas se para a maioria dos pequenos é um motivo de alegria, para outros pode ser um processo verdadeiramente traumático.
Segundo alguns especialistas, se a criança correr o risco de ser a mais nova da turma, os pais devem atrasar esse passo para evitar problemas futuros. No entanto, há também quem entenda que, mais do que a idade, o importante é avaliar o de-senvolvimento intelectual e emocial de cada miúdo.
“Crianças que entram para o primeiro ano e são mais jovens que os seus colegas estão em desvantagem”, considera Angus Thompson, autor do estudo canadiano. “Nesses casos, atrasar a entrada na escola pode ajudar o seu desenvolvimento e autoconfiança. E a construção da autoestima é um processo importante, pois as crianças com maior autoconfiança são mais felizes e saudáveis e têm tendência a ter mais sucesso em adultos.”
Opinião diferente tem o psicólogo Nelson Lima. “O desenvolvimento psicológico, emocional e cognitivo da criança é muito mais importante que a idade cronológica”, explica o também presidente do Instituto da Inteligência.
“Tenho encontrado crianças de quatro anos muito inteligentes e muito bem estruturadas do ponto de vista emocional que estariam perfeitamente preparadas para ir para a escola se pudessem. Para a formação da auto-estima contam muito mais todas as experiências que as crianças tiveram nesses quatro ou cinco anos do que o facto de irem para a escola com uma determinada idade”, conclui o especialista.
Os autores do estudo da universidade canadiana chegaram também à conclusão que as crianças que entram muito jovens para a escola têm maior tendência para desenvolver problemas, como a fobia escolar. Uma doença que afecta apenas um por cento das crianças em idade escolar, mas que pode tornar a vida familiar num verdadeiro inferno. Mais uma vez, Nelson Lima defende que a personalidade da criança é mais importante que a idade.
“A criança extrovertida está bem com o mundo que a rodeia e integra-se bem no grupo. Pelo contrário, uma criança introvertida, muito agarrada aos pais, que está muito em casa e não está habituada a conviver com outras crianças tem maior tendência para desenvolver medos”, explica, “e isso não tem a ver com a idade com que entra para a escola”.
QUANDO PROCURAR AJUDA?
É normal que as crianças tenham algum receio de ir para a escola e que algumas apresentem maior dificuldade na adaptação que outras, podendo mesmo manifestar sintomas físicos, como dores de cabeça ou más disposições. Estes sintomas são considerados normais no período de adaptação a esta nova realidade.
No entanto, é preciso que os pais estejam atentos porque estes medos podem tornar-se fóbicos. E quando a criança já não os consegue eliminar de forma natural podemos estar perante a chamada fobia escolar.
A fobia escolar é uma doença que se distingue dos vulgares medos. É mais intensa e prolongada no tempo e interfere com o quotidiano da criança e de toda a família. As crianças apresentam sintomas somáticos, como vómitos, diarreia, palpitações, dores diversas, perturbações do sono e da alimentação. Podem urinar na cama e chorar desalmadamente quando se aproxima a hora de ir para a escola, o fim das férias ou o final do fim-de-semana.
Normalmente, os sintomas desaparecem milagrosamente quando os pais optam por as deixar em casa. Nestes casos, é necessário que os pais procurem um psicólogo que possa avaliar a criança e identificar concretamente o que está na origem da fobia escolar. Muitas vezes esta doença não está directamente relacionada com a escola, mas com a realidade familiar.
A 'ANINHAS' QUERIDA DA TURMA
Ana Cristina, agora com 32 anos, ainda tem bem presente o seu primeiro dia de aulas. “Tinha apenas cinco anos e, como se isso não bastasse, era pequena e magrinha. Não só era a mais nova da classe como era mesmo a mais pequenina”, recorda.
Ainda assim, não tem más recordações desse tempo. “Não me senti mal na escola, bem pelo contrário. Acho que por ser assim era também bastante mimada, tanto pela professora como pelas auxiliares. Os meus colegas chamavam-me ‘Aninhas’, era um tratamento carinhoso que me distinguia de outra Ana da classe”.
E garante que não se sentiu diminuída perante os colegas por isso. “Não creio que tenha tido reflexos negativos na minha personalidade. Nos primeiros dias senti-me bastante intimidada, mas acho que isso é normal. Depois habituei-me e, talvez porque era boa aluna, nunca me senti inferior aos meus colegas, apesar de ser mais nova e mais pequena que eles. E quanto à idade, é bom lembrar que estamos a falar de apenas uns meses de diferença. Não acho que seja nada de especial”.
EXPO CRIANÇA DISCUTE EDUCAÇÃO
O maior evento português dedicado à criança reúne até 13 de Março, em Santarém, especialistas de várias áreas ligadas à Educação que vão discutir modelos e propostas para o futuro, num ciclo de quatro conferências e um ‘workshop’.
De acordo com a organização da Expo Criança, são esperados 3500 agentes educativos no Centro Nacional de Exposições (CNEMA), entre professores, psicólogos, educadores, animadores culturais e técnicos de serviço social.
O ciclo de conferências abre hoje com o tema ‘Educação e Autarquias – edifícios escolares amigos do Ambiente’, prosseguindo amanhã com o debate sobre ‘O papel da Educação desde a infância – Ambiente, Saúde e Cidadania’.
Na quinta-feira, o professor David Millar, da Universidade de Essex, fala sobre os cuidados com as crianças colocadas em instituições de acolhimento, numa conferência subordinada à ‘Fantasia como forma de pensar as emoções’.
No dia seguinte, o especialista britânico profere um ‘workshop’, sobre a mesma temática, enquanto a conferência, última do ciclo, tem por título ‘Ser bebé’. A 12 e 13 de Março, os pais encontram especialistas para discutir com eles, num modelo informal, dúvidas sobre a nutrição infantil e a importância de brincar.
No total, são 13 mil metros quadrados e 60 expositores, incluindo o Jardim Zoológico e quatro museus.
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