Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
8

Escola primária fecha com saída do único aluno

Uma criança de dez anos termina no final deste ano lectivo o 1.º Ciclo Escolar na aldeia de Agordela, Valpaços, com a particularidade de que ao longo dos quatro anos na escola a única companhia que sempre teve foram as professoras que para ali foram destacadas.
28 de Março de 2005 às 00:00
Um ‘calvário’ que já tinha sido percorrido pelo seu irmão mais velho que também nunca teve companheiros para estudar e brincar.
Luís Filipe Paranta é uma criança que irradia felicidade, mal-grado o facto de na escola e na aldeia, onde nasceu e reside, não ter outras crianças para brincar. Gosta de jogar à bola, mas só quando vai aos convívios do Agrupamento Escolar, tem oportunidade de conviver com outros colegas e jogar uma peladinha: “na minha aldeia não há nenhuma bola”, lamenta.
O CM foi encontrar o aluno e a professora, Fernanda Batista, no final da última aula antes das férias da Páscoa, quando faziam o caminho de regresso à aldeia “para visitarem uma outra escola”, onde o Luís pudesse brincar com outros meninos. A docente não pode fazer declarações “por não estar autorizada pelo Agrupamento a falar”, mas isso não a impediu de assistir deliciada às peripécias que o seu aluno ia contando.
Nas lides escolares, Luís Paranta confessa que o que mais gosta é de matemática, porque adora “brincar com os números”, embora “as redacções e ditados também agradem, tal como o desenho.”
Quando confrontado com o facto de nunca ter colegas na escola, os olhos da criança baixam-se e entristecem. “Há momentos em que é muito triste, porque os dias são sempre muito iguais”, lembra sem, no entanto, esquecer quem sempre ajudou a superar esta falta, ou seja, as três professoras com quem esteve ao longo dos quatro anos do ciclo escolar primário e de quem fala com amizade: “A dona Clarisse esteve comigo na 1.ª e 2.ª classe, quando no ano seguinte apareceu outra professora sofri bastante porque estava muito afeiçoado a ela. Na 3.ª classe foi a professora Clara, também muito minha amiga, mas no final do ano também não voltou. Este ano a professora Fernanda, que me trata muito bem e de quem também gosto muito, vai fechar a escola porque não há mais crianças.”
FC PORTO NO CORAÇÃO
A escola, de um modelo já muito antigo (as carteiras ainda são de madeira, como as que eram usadas há 40 anos) está ‘plantada’ num local ermo, solarengo, distando mais de mil metros da aldeia. Foi ali que o CM ouviu o último aluno falar do futebol que nunca pode jogar, pois não tem colegas. Os olhos de Luís Paranta brilham quando justifica a razão do Futebol Clube do Porto ser o clube do seu coração: “Deus fez o céu e o mar azuis e são perfeitos. Desde que nasci que o Porto ganhou tudo, de quem havia de ser senão deles?”, questiona, ao mesmo tempo que suspira quando lembra que o seu sonho era ter um equipamento do clube e uma bola azul e branca.
IRMÃO PASSOU PELE MENOS
Pedro Paranta tem 13 anos e é o irmão mais velho de Luís. Actualmente tem aulas na sede do Agrupamento Vertical de Vilarandelo, mas passou por todas as vicissitudes que o mano mais novo, já que também foi obrigado a fazer a primária na mesma escola, sozinho. O que equivale a dizer que nos últimos 15 anos nasceram em Agordela apenas os dois irmãos, aos quais o ano passado se juntou um terceiro novo habitante: uma menina que tem agora onze meses. A aldeia de Agordela, pertencente à freguesia de Tinhela, concelho de Valpaços tem apenas 37 habitantes, com a falta de crianças, a escola primária está condenada a encerrar no final deste ano lectivo.
Para assistir às aulas na Preparatória de Vilarandelo, Luís Paranta terá – como já acontece com o irmão Pedro –, de ser transportado todos os dias de táxi, pago pela Câmara de Valpaços, dado não existir outro meio de transporte.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)