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Correio da Manhã

Portugal
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Escolas dois dias paradas

Os professores não desarmam, o Ministério da Educação não cede e quem fica sem aprender durante dois dias são milhares de alunos de todo o País. Hoje e amanhã as escolas vão estar a meio-gás, com mais uma greve dos professores – protesto que o Governo entende ser “inoportuno”. Os sindicatos admitem que esta pode não ser a última greve do ano.
17 de Outubro de 2006 às 00:00
Há duas semanas 20 mil professores marcharam em Lisboa; hoje e amanhã milhares vão faltar às aulas devido a mais uma greve
Há duas semanas 20 mil professores marcharam em Lisboa; hoje e amanhã milhares vão faltar às aulas devido a mais uma greve FOTO: Manuel de Almeida/Lusa
As divergências em torno das alterações ao Estatuto da Carreira Docente estão na base da greve. As 14 estruturas sindicais esperam que a adesão leve o ME a mudar a postura negocial. Mas o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, garante ao CM que depois de amanhã será apresentada uma nova proposta – a última e o conteúdo, que não quis revelar, não será influenciado pelos números da greve. “Não vamos aceitar andar para trás e para a frente. Já mudámos a proposta três vezes, esta será a última. O Estatuto é necessário para melhorar a Educação em Portugal. Se não for possível chegar a acordo, paciência. O Ministério seguirá os procedimentos legais”. Diz a lei da negociação colectiva que, após uma negociação suplementar, se não houver acordo “o Governo toma a decisão que entender adequada”.
Para o governante, a reunião de quinta-feira será o último esforço de aproximação aos sindicatos. “Greve no meio de negociação é extemporânea e parece-me que estava delineada há muito tempo.” A greve só foi marcada há 12 dias.
Ontem, os sindicatos voltaram a criticar a proposta de alteração do ECD. “O novo estatuto levará à permanência de dezenas de milhares de docentes no 7.º escalão, uma medida que visa impedir a progressão na carreira, com critérios economicistas”, disse Paulo Sucena, secretário-geral de Fenprof. “Qualquer decisão tem de ter a respectiva sustentabilidade orçamental. O objectivo principal é melhorar o funcionamento das escolas”, responde Jorge Pedreira.
ALUNOS NO TRABALHO DOS PAIS
No dia 14 de Junho a adesão dos professores à greve rondou os 70 por cento. Para hoje espera-se, de novo, uma adesão elevada. Na escola do 1º. Ciclo Actor Vale, em Lisboa, metade dos professores vão faltar – os alunos ficarão à porta.
Na Secundária Sá da Bandeira, em Santarém, os estudantes deverão ter os tempos lectivos ocupados. “Na última greve, a maior parte teve ocupação, dada pelos professores escalados para as aulas de substituição”, explica Adélia Esteves, presidente do conselho executivo. Alguns pais – os que podem – vão aproveitar o dia de gazeta nas escolas para levar os filhos para o trabalho. É o caso de Jorge Silva, da Associação de Pais da EB 1 n.º 1 de Vale Milhaços (Seixal). Tem duas filhas a estudar – uma na Primária, outra no 2.º Ciclo – e prevê que hoje nenhuma tenha aulas.
“O chato é que só sabemos no dia, ninguém diz se faz ou não greve mas, pelo que aconteceu das outras vezes, devem ficar sem aulas”, diz. Se a mais nova pode ficar o dia todo no ATL da escola primária, já a mais velha deve acompanhar o pai. “Como trabalho por conta própria, posso fazer isso. Mas para os outros pais é mais complicado: ou deixam os miúdos com os avós ou então ficam em casa”, reconhece.
PRIMÁRIA ENCERRADA A CADEADO
Os pais dos alunos da escola do 1.º Ciclo Frei Luís de Sousa, em Lisboa, fecharam ontem a cadeado os portões do estabelecimento de ensino, em protesto contra a falta de auxiliares, que estará a motivar problemas de higiene e segurança.
Na escola há duas funcionárias para 212 alunos. Segundo Ana Maria Lopes, presidente da Associação de Pais, a falta de funcionários não permite controlar a entrada e saída das crianças, a segurança nos recreios e assegurar a limpeza das salas de aula e instalações sanitárias.
O director regional de Educação, José Leitão, garantiu que foi colocado ontem mais um auxiliar de acção educativa e que foram autorizados dois contratos para dois novos funcionários, que estão a seguir os trâmites normais. Os pais decidiram protestar outra vez durante o dia de hoje.
AS DIVERGÊNCIAS
AVALIAÇÃO: SIM, MAS...
O Ministério da Educação (ME) propõe um modelo de avaliação que, contando para evoluir na carreira, integre as taxas de insucesso e abandono escolar e a opinião dos pais. Os sindicatos aceitam a avaliação mas rejeitam estes dois critérios, pois “parte-se do princípio que as escolas estão todas na mesma situação, o que é errado”, afirmou António Avelãs, presidente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa.
TOPO SÓ PARA ALGUNS
O ME quer dividir a carreira em duas categorias: professor e professor titular. Só pode aceder a professor titular quem obtiver boa nota na avaliação, mas as escolas terão quotas de professores titulares. Os sindicatos rejeitam e criticam, pois desta forma nem todos os bons professores atingirão o topo da carreira. “Foi o facto de todos os professores, bons e maus, atingirem o topo que degradou a carreira e a imagem dos professores”, diz Jorge Pedreira, secretário de Estado Adjunto e da Educação.
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