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Correio da Manhã

Portugal
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Espancada até à morte por se sujar com leite

Sara tinha dois anos e meio. Era uma criança frágil, que se movimentava com dificuldade, que aparecia no jardim-de-infância cheia de fome e de nódoas negras. Sara morreu a 27 de Dezembro do ano passado e a mãe, Ana Isabel, começa hoje a ser julgada, pelas 09h30, no Tribunal de Monção, acusada de homicídio qualificado e maus-tratos.
26 de Setembro de 2007 às 00:00
Ana Isabel começou por dizer que a filha caiu de umas escadas
Ana Isabel começou por dizer que a filha caiu de umas escadas FOTO: Sérgio Freitas
Fora do banco dos réus estarão as técnicas da segurança social que tinham o caso de Sara sinalizado e as educadoras de infância que desde Novembro se aperceberam que a criança era maltratada.
Sara morreu dois dias depois do Natal. Segundo a acusação – que o CM consultou – foi agredida porque sujou a roupa com leite. A mãe perdeu as estribeiras quando a menina recusou o biberão e Sara foi espancada a murro e pontapé. “Sara, de imediato, começou a desfalecer, não segurando a cabeça, que se inclinava indistintamente nos dois sentidos”, diz o MP, reforçando a tese com o relatório da autópsia, onde é claro que a causa da morte da criança foi “laceração hepática”.
O despacho revela ainda que Sara sempre foi a filha rejeitada e que chegava mesmo a passar horas sozinha, enquanto a mãe levava os irmãos ao café. Uma vida marcada pelo sofrimento que a levou a ter um crescimento substancialmente diferente dos irmãos. Sara mal andava, falava com dificuldade e o primeiro pedido no centro infantil que frequentava era que lhe dessem um pouco de pão.
As características de Sara e a sua fragilidade eram o motivo de irritação da mãe, que por isso a maltratava. Tal como acabou por acontecer na manhã de 27 de Dezembro, sendo a menina socorrida cerca de meia hora depois da agressão.
Ana Isabel levou a filha num carrinho de bebé ao centro de saúde mais próximo, revelando que a criança caíra de umas escadas. Uma tese desmentida pelas marcas no corpo que não deixaram dúvidas aos médicos e à polícia.
Na altura, o pai de Sara também foi interrogado, mas as autoridades terão criado a convicção de que o homem desconhecia os maus-tratos de que a filha era vítima. Trabalhador indiferenciado, o indivíduo saía muito cedo para o trabalho e os cuidados prestados às crianças eram poucos. Estivera preso algum tempo antes, por conduzir sem carta, o que fazia com que não se apercebesse da gravidade do estado da filha.
PORMENORES
INVESTIGAÇÃO
O Instituto de Reinserção Social anunciou um rigoroso inquérito após a morte de Sara. A conclusão foi que as técnicas não tinham o caso sinalizado como sendo de maus-tratos e que por isso não actuaram de imediato
VÁRIAS LESÕES
A acusação diz que desde o dia 9 de Novembro que as educadoras se aperceberam das lesões apresentadas por Sara. Tinha nódoas negras, hematomas, vestígios de unhadas e beliscões
PERÍCIA
O advogado de Sara requereu ao tribunal uma perícia de personalidade à arguida, para provar que Ana Isabel apresenta um atraso substancial. A defesa não passará pela inimputabilidade da suspeita, mas por tentar reduzir a pena. A mãe de Sara incorre em 25 anos de cadeia.
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