Caso mais recente ocorreu na madrugada de domingo quando um homem de 33 anos, com antecedentes por violência doméstica, saltou de um oitavo andar com a filha de 4 anos ao colo.
A responsável pelo projeto APAV Hope alertou para o risco de "efeito mimético" dos homicídios de crianças em contexto de violência doméstica, defendendo que a sociedade não pode normalizar um fenómeno que já matou quatro menores este ano.
O alerta surge depois de o Jornal de Notícias ter noticiado que, nos primeiros meses de 2026, morreram quatro crianças em contexto de violência doméstica, igualando o número registado em todo o ano de 2022, considerado o mais mortal para menores desde 2019.
O caso mais recente ocorreu na madrugada de domingo, em Santarém, quando um homem de 33 anos, com antecedentes por violência doméstica, saltou de um oitavo andar com a filha de 4 anos ao colo, provocando a morte de ambos, dias depois do homicídio de uma menina de 8 anos pela madrasta em Valpaços.
Em declarações à Lusa, Carla Ferreira, responsável pelo projeto APAV Hope -- Apoio a Vítimas de Homicídio, Terrorismo e Vitimação em Massa, considerou que cada uma destas mortes deve levar a uma reflexão coletiva sobre as falhas na prevenção da violência: "Todos nós podemos ter falhado enquanto sociedade".
Sobre os casos registados nas últimas semanas, Carla Ferreira alertou para o risco de mimetismo associado à ampla divulgação destes crimes.
"Não é incomum que haja este efeito mimético", afirmou, explicando que a exposição mediática dos casos pode funcionar como fator adicional de motivação para pessoas que já tenham intenções violentas.
A especialista ressalvou que os crimes devem continuar a ser noticiados, mas defendeu uma abordagem responsável que evite transformar os casos em elementos de identificação para potenciais agressores.
Para Carla Ferreira, o principal risco é a sociedade começar a encarar estes homicídios como acontecimentos normais.
"Não podemos achar que é normal que numa semana tenham morrido duas crianças em contexto de violência doméstica", afirmou. "Não podemos dessensibilizar-nos relativamente a isto".
A especialista sublinhou que muitos homicídios de crianças em contexto familiar não resultam de atos impulsivos ou exclusivamente associados a problemas de saúde mental, mas antes de comportamentos deliberados e enquadrados nas dinâmicas da violência doméstica.
"Há muita deliberação, muitas vezes há ameaças prévias, muitas vezes há pistas que vão sendo deixadas por quem acaba por praticar estes crimes", explicou.
Segundo Carla Ferreira, estes homicídios estão frequentemente associados a relações marcadas pelo poder, controlo e violência, sendo as crianças utilizadas para atingir ou punir o outro progenitor.
Apesar de admitir que é difícil apontar responsabilidades concretas sem conhecer os detalhes de cada caso, a responsável da APAV recordou que Portugal regista anualmente cerca de 30 mil denúncias de violência doméstica, uma realidade que exerce forte pressão sobre as autoridades e o sistema judicial.
"Temos uma carga muito significativa de denúncias todos os anos", afirmou, apontando para a escassez de recursos humanos nas forças policiais, Ministério Público, tribunais e serviços de justiça.
Na sua perspetiva, essa sobrecarga pode contribuir para atrasos na avaliação de risco e no acompanhamento de situações sinalizadas, embora ressalve que cada caso tem especificidades próprias.
Carla Ferreira defendeu que existe margem para melhorar a resposta do sistema, nomeadamente através da recolha mais rápida de prova junto das vítimas.
Considerou essencial que as declarações para memória futura sejam realizadas nas primeiras horas após a denúncia, permitindo preservar testemunhos que muitas vezes se revelam decisivos para o processo criminal.
A especialista alertou igualmente para a crescente severidade dos episódios de violência doméstica, considerando que, apesar de os números globais se manterem relativamente estáveis, os casos têm revelado níveis mais elevados de gravidade.
Na origem desta realidade, apontou fatores como a disseminação de discursos de misoginia e de tolerância à violência, sobretudo através das redes sociais.
"Estamos também com um problema de raiz, que é termos cada vez mais um discurso de tolerância relativamente à violência como forma aceitável de resolver problemas", disse.
Carla Ferreira destacou que as crianças deixaram há vários anos de ser vistas apenas como testemunhas da violência doméstica, passando a ser reconhecidas legalmente como vítimas, mesmo quando não são alvo direto de agressões.
Segundo explicou, crescer num ambiente violento pode provocar consequências profundas ao nível psicológico, emocional, social e até económico, aumentando o risco de problemas de ansiedade, dificuldades relacionais e reprodução futura de comportamentos violentos.
"As crianças vão absorver certos comportamentos como sendo normativos", alertou.
A responsável da APAV referiu ainda que os casos conhecidos nos últimos anos envolvem frequentemente crianças mais novas e, em vários casos mediáticos, raparigas.
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