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Correio da Manhã

Portugal
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ESPECIALISTAS DA POLÍCIA POSTOS A UMA SECRETÁRIA

Desde Agosto que os especialistas das informações da PSP de Lisboa não recolhem informação no terreno. Entre outras, uma das áreas que os operacionais do Ninfo - Núcleo de Informações do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa (Cometlis) tratavam era a recolha de dados sobre tuning e 'street-racing', cada vez mais importante após o acidente de Palmela onde morreram três jovens que assistiam a uma corrida ilegal de carros.
10 de Outubro de 2004 às 00:00
A recolha de informação em manifestações era um dos trabalhos dos agentes do Ninfo
A recolha de informação em manifestações era um dos trabalhos dos agentes do Ninfo FOTO: Pedro Catarino
A PSP transferiu os cinco operacionais que recolhiam estas informações sem que algum tivesse sido alvo de qualquer processo. Naquele sector só a área de análise tem funcionado nos últimos três meses. A Polícia admite que está a ser feita uma "grande reorganização".
Os operacionais da brigada que fazia a recolha e pesquisa - Sainfo - foram todos transferidos para áreas administrativas (ver caixa) sem terem sido substituídos.
Há três dias, já com a nossa reportagem no terreno, foram colocados naquela secção dois novos agentes. Até então, apenas o motorista e o novo comandante ali tinham sido colocados.
Contactado pelo CM o comandante da PSP de Lisboa negou não estar a ser feita recolha de informações. "Temos mais de seiscentos agentes na rua. Mal seria se isso não significasse uma boa recolha de informações", disse ao nosso jornal o superintendente Oliveira Pereira, ele próprio um oficial 'por dentro' do meio das informações.
É sabido que a informação recolhida por um agente é bem diferente daquela que é pesquisada por um especialista.
Mesmo assim o comandante da PSP de Lisboa insistiu em afirmar que "o que está de facto em causa é uma grande reorganização de todo o sistema que mexe com interesses instalados".
Instado a explicar se os operacionais dispensados eram incompetentes, negou, mas quando perguntámos se tinha perdido a confiança naqueles homens, o comandante de Lisboa fez um silêncio e depois exclamou "não diria tanto".
"Trata-se de construir uma nova realidade nas informações. Mas a recolha de informação foi feita", disse o responsável.
Em verdade, desde Agosto não houve quem tivesse saído à rua simplesmente porque o Ninfo não tinha ninguém na recolha.
Nas diversas tentativas que fizemos para contactar os homens da informação agora dispensados apenas uma única frase nos foi proferida: "mais problemas não!".
INFORMAÇÃO PERDIDA
Uma boa fatia do manancial que estes operacionais da Sainfo recolhiam no terreno ter-se-á perdido. O CM sabe que o próprio SIS foi também prejudicado já que perdeu ali uma fonte privilegiada sobre muitos dos movimentos da capital.
O novo comandante da Ninfo é o comissário Pedro Franco, tido como um especialista em informações. Mas sem ovos não há omeletas…
O investimento em formação profissional nestas áreas é caro e tido como muito especial. Fonte policial na direcção nacional da PSP confidenciou ao CM que depois de perder o investimento feito em alguns agentes que se transferiram para a PJ, a PSP está agora a desperdiçar meios humanos especializados numa das mais caras áreas da profissão: a informação.
DE OPERACIONAIS A CARTEIROS
Os cinco operacionais da PSP que recolhiam a informação sobre o tuning (Sainfo) foram transferidos há meses para sectores administrativos, sem que algum tivesse sido alvo de qualquer processo de averiguações, disciplinar ou crime. O chefe da secção foi colocado no património. Tinha formação diversa na área das informações. Estudou com os militares, fez formação no SIS e na Direcção Nacional da PSP. Dois agentes foram colocados na fiscalização das armas. Tinham recebido formação de análise, seguimento e vigilância na DN da PSP e no SIS.
Dois outros agentes da Sainfo-PSP foram colocados a separar cartas no sector da correspondência e a entregar cartas precatórias. Ambos tinham as mesmas habilitações na área das informações. Estes agentes especiais da PSP têm todos menos de quarenta anos e quase dez de experiência na área da pesquisa e recolha de informações. Agora entregam cartas, fiscalizam armeiros e tomam conta do património.
INFORMAÇÃO
CONHECEDOR
O comandante do Comando da PSP de Lisboa (Cometlis) é, ele próprio, especialista em informações. O superintendente Oliveira Pereira é oriundo da arma de cavalaria, do Exército, e na PSP manteve-se sempre ligado à área.
DUAS ÁREAS
O Núcleo de Informações da PSP de Lisboa é chefiado por um comissário e tem duas áreas distintas. Uma é administrativa e faz análise de informação. Tem seis elementos. A outra (Sainfo) é composta por cinco operacionais (um chefe e quatro agentes) especializados em recolha e análise de informação.
COMPETÊNCIAS
Os agentes da Sainfo recolhiam no terreno, informações sobre ‘tuning’ e ‘street-racing’, (oficinas, lojas, locais de encontro e apostas) claques de futebol (membros, agitadores e iniciativas em curso, recorrendo a informadores), e apoio a altas entidades (locais sensíveis, hotéis, carros e indivíduos suspeitos, avaliação de riscos).
RECOLHA DE IMAGENS
A recolha de imagens específicas está também entre as missões destes operacionais da PSP. Estes agentes eram responsáveis pela recolha da informação antes e durante as manifestações de estudantes e sindicatos.
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