José Coentrão chorou ao regressar a casa. Pediu duas malgas de sopa, que a mulher preparou horas antes, e foi dormir. Tinha beijado o chão da base aérea de Monte Real e o seu único desejo era voltar a sentir o calor dos edredões, na casa que partilha com a mulher e o filho.
1 / 12
Confessou que o mais difícil das 57 horas em alto-mar foi suportar o frio. E que chegou a pensar em desistir. "Esperámos todos por uma luz divina", contou emocionado. A Lina, a mulher, relatou o momento mais doloroso: "Foi quando vi as luzinhas do barco a apagarem-se. Tinha ido ao fundo."
Ontem, foi Lina a abrir a porta de casa. O mestre tinha "saído, para tentar aclarar as ideias", após tantas horas de emoções. "Nem só o meu marido foi um herói. Ele tomou conta de todos e acabou por salvá-los. Mas tiveram os seis muita coragem, por aguentarem tudo aquilo", disse Lina ao CM.
A "mestra", como é conhecida em Caxinas, repete as palavras do marido: "Contou-me que estava de vigia e reparou que havia água a entrar no barco. Só teve tempo de acordar os outros pescadores e foram para a balsa. Conseguiu pegar apenas num edredão."
Ver o barco a desaparecer nas águas gélidas foi o momento mais doloroso. "Este foi o primeiro susto em tantos anos de profissão", continua.
As 57 horas passadas à deriva foram o grande desafio à sobrevivência. O mestre deitou-se em cima dos outros pescadores, para que aqueles se mantivessem quentes. Rezaram horas a fio, usando o terço que Fernando Maravalhas trazia ao peito. Pediram um milagre, viram os bancos aproximar-se e a não os avistar, sentiram as forças a fugir. Tiveram momentos em que quase desistiram. "Ele só desanimou no último dia. Achou que não iam sair dali, mas a fé não o abandonou. Foi isso que os salvou", contou.
Depois do medo, do luto e da esperança ter quase desaparecido, a alegria voltou anteontem às Caxinas. Nas ruas, todos falam do milagre, do regresso a casa, dos "melhores pescadores do Mundo". Homens que dizem que tão cedo não voltarão ao mar, mas que a vida os poderá obrigar a regressar à faina.
"JÁ DISSERAM QUE VÃO JUNTOS A FÁTIMA"
José Coentrão, mestre da embarcação, já esteve a combinar com os restantes companheiros uma ida a Fátima para agradecerem o "milagre" que lhes salvou a vida. Apenas ‘Nando Cherne' não deverá ir, uma vez que tem graves problemas num joelho, mas irmã Aurora já disse que vai cumprir a promessa por aquele.
"Já disseram que vão todos juntos a Fátima. Querem agradecer à Nossa Senhora, afinal foi ela que os salvou nesta hora tão difícil", explicou ao CM Lina Coentrão, mulher do mestre.
Todos os pescadores são unânimes quando falam no motivo que os salvou: a fé. Hoje à tarde vão estar presentes numa missa na Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes, onde irão agradecer mais uma vez por estarem vivos. Antes haverá ainda uma pequena procissão que vai partir de Vila do Conde em direcção às Caxinas.
PESCADOR CONTINUA INTERNADO
Fernando Maravalhas, mais conhecido por ‘Nando Cherne' continua internado no Hospital de Leiria. O pescador, de 44 anos, já mostra alguns sinais de melhoria, mas ainda vai ter de receber tratamento hospitalar nos próximos dias.
"Ele já está bem melhor. Falámos novamente com ele hoje [ontem] e já está mais lúcido. Ainda confunde muito o que aconteceu com outras coisas que já viveu", explicou ao CM Aurora, irmã de Fernando.
Se tudo correr bem, nos próximos dias ‘Nando Cherne' deverá ser transferido para um hospital mais próximo da área de residência. "Sentimo-nos tristes por não o ter já aqui em casa, mas o que interessa é que ele está bem, que está vivo", disse Aurora emocionada.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.