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“Esperámos todos por uma luz divina” (COM VÍDEOS/FOTOS)

José Coentrão chorou ao regressar a casa. Pediu duas malgas de sopa, que a mulher preparou horas antes, e foi dormir. Tinha beijado o chão da base aérea de Monte Real e o seu único desejo era voltar a sentir o calor dos edredões, na casa que partilha com a mulher e o filho.

04 de dezembro de 2011 às 01:00

Confessou que o mais difícil das 57 horas em alto-mar foi suportar o frio. E que chegou a pensar em desistir. "Esperámos todos por uma luz divina", contou emocionado. A Lina, a mulher, relatou o momento mais doloroso: "Foi quando vi as luzinhas do barco a apagarem-se. Tinha ido ao fundo."

Ontem, foi Lina a abrir a porta de casa. O mestre tinha "saído, para tentar aclarar as ideias", após tantas horas de emoções. "Nem só o meu marido foi um herói. Ele tomou conta de todos e acabou por salvá-los. Mas tiveram os seis muita coragem, por aguentarem tudo aquilo", disse Lina ao CM.

A "mestra", como é conhecida em Caxinas, repete as palavras do marido: "Contou-me que estava de vigia e reparou que havia água a entrar no barco. Só teve tempo de acordar os outros pescadores e foram para a balsa. Conseguiu pegar apenas num edredão."

Ver o barco a desaparecer nas águas gélidas foi o momento mais doloroso. "Este foi o primeiro susto em tantos anos de profissão", continua.

As 57 horas passadas à deriva foram o grande desafio à sobrevivência. O mestre deitou-se em cima dos outros pescadores, para que aqueles se mantivessem quentes. Rezaram horas a fio, usando o terço que Fernando Maravalhas trazia ao peito. Pediram um milagre, viram os bancos aproximar-se e a não os avistar, sentiram as forças a fugir. Tiveram momentos em que quase desistiram. "Ele só desanimou no último dia. Achou que não iam sair dali, mas a fé não o abandonou. Foi isso que os salvou", contou.

Depois do medo, do luto e da esperança ter quase desaparecido, a alegria voltou anteontem às Caxinas. Nas ruas, todos falam do milagre, do regresso a casa, dos "melhores pescadores do Mundo". Homens que dizem que tão cedo não voltarão ao mar, mas que a vida os poderá obrigar a regressar à faina.

"JÁ DISSERAM QUE VÃO JUNTOS A FÁTIMA"

José Coentrão, mestre da embarcação, já esteve a combinar com os restantes companheiros uma ida a Fátima para agradecerem o "milagre" que lhes salvou a vida. Apenas ‘Nando Cherne' não deverá ir, uma vez que tem graves problemas num joelho, mas irmã Aurora já disse que vai cumprir a promessa por aquele.

"Já disseram que vão todos juntos a Fátima. Querem agradecer à Nossa Senhora, afinal foi ela que os salvou nesta hora tão difícil", explicou ao CM Lina Coentrão, mulher do mestre.

Todos os pescadores são unânimes quando falam no motivo que os salvou: a fé. Hoje à tarde vão estar presentes numa missa na Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes, onde irão agradecer mais uma vez por estarem vivos. Antes haverá ainda uma pequena procissão que vai partir de Vila do Conde em direcção às Caxinas.

PESCADOR CONTINUA INTERNADO

Fernando Maravalhas, mais conhecido por ‘Nando Cherne' continua internado no Hospital de Leiria. O pescador, de 44 anos, já mostra alguns sinais de melhoria, mas ainda vai ter de receber tratamento hospitalar nos próximos dias.

"Ele já está bem melhor. Falámos novamente com ele hoje [ontem] e já está mais lúcido. Ainda confunde muito o que aconteceu com outras coisas que já viveu", explicou ao CM Aurora, irmã de Fernando.

Se tudo correr bem, nos próximos dias ‘Nando Cherne' deverá ser transferido para um hospital mais próximo da área de residência. "Sentimo-nos tristes por não o ter já aqui em casa, mas o que interessa é que ele está bem, que está vivo", disse Aurora emocionada.

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