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Correio da Manhã

Portugal
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ESTRATÉGIA ESPERTALHONA PARA AGARRAR CLIENTES

Já lguma vez recebeu no correio um cartão de crédito que não solicitou? Em Portugal, alguns bancos utilizaram há cerca de um ano uma estratégia em que era o cliente quem tinha de manifestar-se se não quisesse aderir ao cartão, isto depois de já o ter na mão. Agora, há pelo menos um banco que está a recuperar esta táctica, considerada ilícita pela Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco).
6 de Novembro de 2004 às 00:00
Muita gente nem se dá conta, mas ao comprar um electrodoméstico ou um móvel a prazo numa loja, está no fundo a contrair um empréstimo, geralmente com uma instituição financeira por trás. É o caso do Banco Cetelem, que financia os créditos em mais de seis mil lojas em Portugal.
Este banco tem aproveitado a informação sobre os seus clientes, muitas vezes depois de estes já terem liquidado a dívida relativa à compra que efectuara m, para enviar um cartão de crédito Aurora Mastercard. O envio é feito por correio normal, sem registo ou aviso de recepção, acompanhado de uma carta informando das vantagens do cartão, do valor do crédito que a pessoa acabou de contrair mesmo sem solicitar, e da mensalidade que, em breve, passará a ser descontada da conta, cujo NIB é do conhecimento do banco.
Na parte de trás da carta, em letras bem pequeninas, um extenso texto intitulado “Condições Gerais de Utilização” deixa claro que o cliente já aderiu ao cartão, a menos que envie no prazo de 7 dias úteis um cupão publicado mais abaixo, em que renuncia ao uso do cartão. Se não o fizer, começa a pagar, com as mensalidades a serem descontadas na conta.
BANCO TEM TIDO RECLAMAÇÕES
O Banco Cetelem nega alguma vez ter atribuído crédito que não tenha sido pedido. “Este cartão é enviado apenas se as pessoas solicitarem directamente ou com o pedido de crédito feito através da loja em que fizeram uma compra a prazo”, garante Joana Nunes, do departamento de comunicação do banco. A responsável confirma, no entanto, que “tem havido reclamações” de clientes que não sabiam que iam receber o cartão.
O ‘equívoco’ resulta de as pessoas não lerem com atenção os contratos que assinam quando compram um artigo para pagar em várias vezes. “No contrato de compra a prazo, há uma alínea em que a pessoa afirma-se disponível a receber este cartão mais tarde. Há muitos clientes que associam o crédito à loja. A pessoa assina o contrato sem ler e pode não estar a tomar conhecimento de que passou a ser cliente do banco.”
"DEVE SER DENUNCIADA A SITUAÇÃO" (Jorge Morgado, secretário-geral da Deco)
Correio da Manhã – Concorda com esta estratégia dos bancos?
Jorge Morgado – Somos contra este tipo de procedimento, claramente. Não concordamos com o envio de cartões de crédito sem que o cliente o solicite. São estes comportamentos que levam às situações conhecidas de endividamento excessivo das pessoas.
O que deve fazer quem recebe um cartão de crédito que não pediu?
– Se a pessoa não pediu o cartão, não tem obrigação de o devolver. Quem se vir nessa situação deve enviá-lo sim para o Banco de Portugal, denunciando este tipo de comportamento. E em caso algum deve usar o cartão.
E se a pessoa assinou sem saber uma alínea que permite ao banco mais tarde mandar o cartão?
– Nem que seja só do ponto de vista ético, não somos favoráveis a que os clientes tenham à sua disposição um crédito não solicitado.
No caso de extravio da carta com o cartão, o cliente teria à mesma de pagar as mensalidades?
– Isso criaria uma situação de conflito desnecessária, em que o cliente viria dizer que não tinha recebido o cartão e o banco teria de provar o contrário. Pode ser perigoso.
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