Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
7

Esventrado por 20 €

António Pinheiro, um sem-abrigo de 68 anos, exibiu dinheiro a companheiros toxicodependentes. Foi drogado, espancado e esfaqueado até à morte, numa vivenda devoluta
28 de Abril de 2010 às 00:30
Esventrado por 20 €
Esventrado por 20 € FOTO: Ricardo Cabral

Quando já se preparava para dormir, numa noite que a Judiciária ainda não conseguiu determinar ao certo, mas que estima ter sido há cerca de 15 dias, António Pinheiro foi surpreendido no rés-do-chão da vivenda devoluta na Cova da Piedade, Almada. O sem-abrigo, 68 anos, foi atordoado com uma substância química por parte de três companheiros de casa, que a seguir o torturaram, espancaram e esventraram com uma sequência de facadas no tronco. Foi morto selvaticamente para lhe roubarem os 20 euros que, há dias, andava a exibir aos companheiros.

Por fim, os três jovens homicidas, toxicodependentes, fugiram com o dinheiro e o cadáver do sem-abrigo ficou esquecido no local do crime. Mas quem se tinha habituado a ver António na rua da Liberdade, estranhou a ausência repentina. 'Ele entrava e saía do nº 18 várias vezes e alimentava-se em restaurantes da zona, onde tinha amigos', conta ao CM Lurdes Gomes, comerciante na zona. Aumentaram as suspeitas, até que, ao final da manhã de anteontem, a PSP foi alertada. Arrombada a porta, desvendou-se um cenário aterrorizante.

O corpo de António Pinheiro já estava em acelerada decomposição, mas não escondia as marcas da extrema violência com que foi assassinado. O caso foi entregue à Judiciária de Setúbal, que, em colaboração com as brigadas à civil da PSP de Almada, encontrou dois dos três homicidas escondidos numa casa devoluta do Monte da Caparica. Ambos confessaram logo o crime, sendo hoje presentes ao tribunal de Almada.

MAU CHEIRO LEVANTOU SUSPEITAS

Desde há duas semanas que, dia após dia, as pessoas na rua da Liberdade, Cova da Piedade, em Almada, falavam sobre a ausência de António Pinheiro. 'E mais estranho se tornou quando os três homens que com ele pernoitavam na vivenda também desapareceram', recordou ao CM um morador na zona, que acrescentou: 'Notava-se um forte mau cheiro no ar'.

Um grupo restrito de pessoas, próximas do sem-abrigo, contactou a PSP e, pelas 11h00 de segunda-feira, uma brigada da Esquadra de Investigação Criminal da PSP de Almada entrou finalmente na vivenda onde António Pinheiro pernoitava. Constatada a sua morte e avolumadas as suspeitas de homicídio, depressa se desenhou uma colaboração PSP-PJ de Setúbal, que permitiu rapidamente prender dois dos suspeitos do crime.

FACADA MORTAL NO PESCOÇO

Várias fontes policiais qualificaram de 'pavorosa' a morte de António Pinheiro. 'A vítima terá sido assassinada numa situação planeada', referiu um dos informadores.

Na realidade, o sem-abrigo foi surpreendido, estima a Polícia Judiciária, há cerca de duas semanas, quando se preparava para dormir. Atordoado com uma substância química, António Pinheiro sofreu inúmeras agressões a murro e pontapé. O golpe de misericórdia ter--lhe-á sido dado com uma facada no pescoço, a que se seguiram variados golpes por toda a zona do tronco. Tudo para os três autores do homicídio lhe roubarem 20 euros.

PORMENORES

DIZEM QUE FOI ESCRITOR

António Pinheiro era estimado na rua da Liberdade, Cova da Piedade. Bom conversador, falava-se até que tinha sido escritor, enquanto jovem.

DEVOLUTO HÁ TRÊS ANOS

A vivenda onde o sem-abrigo escolheu residir estava devoluta há cerca de três anos. Só há pouco mais de um mês, quando três homens se lhe juntaram no imóvel, é que António Pinheiro passou a dormir no interior da casa.

SUSPEITOS DE TRÁFICO

Dois dos suspeitos do crime já detidos têm antecedentes criminais por tráfico. Foram presos pela PSP, numa casa devoluta do bairro Cor-de-Rosa, no Monte da Caparica.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)