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Correio da Manhã

Portugal
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ETERNA CONTESTAÇÃO

Inconformados e irreverentes. São assim os estudantes do ensino superior. Os de ontem e os de hoje, já que a contestação académica é quase uma tradição em Portugal. Há como que uma eterna insatisfação que os coloca permanentemente na rua, independentemente do residente ocasional da 5 de Outubro. Certo é que os governos passam, as políticas mudam e a contestação permanece. O próximo protesto está agendado para quinta-feira. Será dia de greve geral.
18 de Maio de 2003 às 00:43
ETERNA CONTESTAÇÃO
ETERNA CONTESTAÇÃO FOTO: Arquivo CM
Nos dias que correm são as propinas que os ameaçam e os motivam, mas nem sempre essa contestação se resumiu a questões educativas. Na década de 60, por exemplo, os estudantes levantaram-se contra o salazarismo e a guerra colonial.
“Os estudantes têm uma irreverência natural e a contestação faz parte da sua condição estudantil”. A análise é de um antigo ministro da Educação e um estudioso nesta matéria, Roberto Carneiro. O docente universitário que conduziu os destinos da população estudantil entre 1987 e 1991, entende, porém, que nem todos os estudantes se empenham da mesma forma e que nem todas as lutas são por uma boa causa.
“Alguns esforçam-se, outros vão na onda da contestação, algumas causas têm fundamento, outras parecem folclore”, refere o antigo governante, recordando que nem todos os estudantes têm a mesma visão da luta académica.
POSTURAS MENOS PRÓPRIAS
“É sempre positivo quando os estudantes lutam por uma participação efectiva e pela melhoria da qualidade de ensino, mas parece-me muito pouco maduro quando andam pela rua a beber cerveja, como se viu há dias, que nem uma ideia conseguiam articular”, referiu.
Quem também já tutelou a pasta da Educação e se viu confrontado com as intervenções estudantis, foi Augusto Santos Silva, ministro do Governo PS entre em 2000 e 2001.
“Há uma insatisfação corrente e até natural”, afirmou em declarações ao CM. O actual deputado garante, porém, que os estudantes “têm razão para estar preocupados neste momento”.
“Há cortes graves no orçamento das universidades. A opção prejudica claramente o ensino superior”, disse sugerindo alguma “sensatez” ao Governo. “No actual estado de coisas, seria conveniente colocar-se um mínimo de obstáculos possível ao orçamento das famílias”, sublinhou Augusto Santos Silva.
Opinião partilhada pelo professor João Cunha e Serra. Classificando a contestação como um “defraudar das expectativas dos estudantes”, o docente referiu que nesta matéria os sucessivos governos têm tido uma atitude muito semelhante.
“Há uma tentativa constante de aumentar as contribuições das famílais com o aumento das propinas”, disse. João Cunha e Serra revela-se, de resto, um adepto da luta estudantil, desde que esta seja por uma causa justa: “Eles têm razão para se queixarem. É que as propinas são cobradas, enquanto que as promessas ninguém as cobra”.
João Cunha e Serra considera ainda que a luta académica é “uma grande escola de políticos e recorda que um dos activistas ‘formados’ nessa mesma escola foi precisamente o actual Presidente da República. Jorge Sampaio, recorde-se, foi um dos protagonistas da crise académica do princípio dos anos 60.
REACÇÕES E MOTIVOS DA LUTA ESTUDANTIL
“NÃO PAGAMOS“
Das intervenções estudantis mais recentes ficou famosa uma imagem e uma frase: “Não pagamos”, era a frase. A imagem eram uns tantos estudantes de calças em baixo, rabo no ar e de costas para o ministro Couto dos Santos. A frase lá estava bem clara. Couto dos Santos foi ministro do XII Governo Constitucional, liderado por Cavaco Silva.
PROPINAS
As propinas para o ensino superior vão ser fixadas por cada instituição, variando de curso para curso, até ao máximo de 77 euros mensais. Os alunos que ingressem pela primeira vez no superior no próximo ano lectivo vão passar a pagar mais, podendo o valor da propina chegar aos 770 euros, o dobro do que pagam hoje: 356 euros.
ALTERAÇÕES
Para além do aumento das propinas, os estudantes contestam outras alterações que o ministro do Ensino Superior, Pedro Lynce, pretende introduzir. Entre elas incluem-se a extinção dos bacharelatos; a redução para quatro anos das licenciaturas; a criação de órgãos científico, pedagógico e directivo obrigatórios e o aumento da acção social escolar.
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