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Correio da Manhã

Portugal
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EU SOU IMPOTENTE

Lança as mãos à cabeça e assegura: “Sou impotente.” Fernando D. tem 65 anos e, como o CM noticiou ontem, é acusado por uma menina de 12 de a ter violado. “Não fui eu”, afirma-nos, garantindo que aos 52 anos foi submetido a uma cirurgia à coluna e que, desde então, nunca mais conseguiu ter relações sexuais.
27 de Outubro de 2003 às 00:00
Na passada quarta-feira – dia em que Ana, chamemos-lhe assim, diz ter sido abusada por ele – levantou-se às 08h30 e foi comprar o jornal. Fernando mora no Lavradio, Barreiro, tal como a alegada vítima.
Regressado a casa, fez o pequeno-almoço, leu o jornal na cama e almoçou. "Depois passei a tarde a ver televisão e só saí às 17h00 para ir ao café beber uma imperial."
Mas Ana contrapõe que Fernando a sequestrou pelas 14h00, perto da escola que frequenta, a Álvaro Velho, no Lavradio, e a levou para casa dele, onde a violou.
Mais. Ana diz que ele a empurrou para dentro de uma viatura, mas Fernando alega que não tem carro desde Maio. "Vendi-o a um rapaz e nunca mais tive outro. Estava velho."
O veículo de Fernando era vermelho e foi visto muitas vezes perto da escola de Ana. "Não era eu quem estava lá dentro", reafirma. "Nunca parei na escola."
Depois de alegadamente abusada, Ana afirma que o pontapeou e fugiu para a escola, onde se queixou ao director de turma, que por sua vez chamou a mãe da menina e informou-a do sucedido.
A mãe acompanhou-a ao hospital, primeiro ao do Barreiro e depois ao D. Estefânia, em Lisboa, para a realização de análises e apresentou queixa na PSP, Esquadra do Barreiro. Isto na quinta-feira, quando Fernando D. foi detido para ser ouvido.
"Vieram cá a casa e eu deixei-os entrar e levarem o que fosse necessário", conta o alegado abusador, confirmando que os agentes apreenderam o lençol que estava na sua cama.
Um peça manchada que foi mandada para análise. "Sim, tinha uma mancha. Sabe de quê? De banana. É que eu gosto muito de comer pão com banana e deve ter caído um bocado para o lençol", alega.
Apreendido o lençol, Fernando acompanhou os agentes à esquadra para ser ouvido e identificado pelas alegadas vítimas.
É que, além de Ana, há uma outra menina, igualmente com 12 anos, que diz ter sido seguida e aliciada, durante meses, por ele.
Ao CM, Fernando diz mesmo pensar que a acusação parte dessa menina. “Porquê? Porque quando estava a ser identificado pedi para ir à casa de banho. Os polícias deixaram e disseram-me para pôr o jornal à frente da cara e não olhar para o lado. Mas olhei e vi o padrasto dela. Juntei dois mais dois e percebi...” Percebeu mal.
E afirmando-se convencido da identidade da queixosa, Fernando diz que ela mora num edifício nas traseiras do dele e que, durante muito tempo, foi ela que lhe tocou à porta a pedir dinheiro.
“E um dia eu cedi e dei-lhe um euro para comprar chocolates. Agora, há que tempos que não a vejo.”
O homem reitera a sua inocência: “Eu faço os testes que for preciso para provar que não fiz nada. Isto é uma cabala, um enxovalho.”
Libertado depois de ter sido ouvido, não contou a ninguém o que se passou. “Nem à minha filha. Ela não sabe de nada”, refere, com medo no olhar, acrescentando que vai aguardar o resultado das análises.
Depois, já lacrimejando, assegura que era incapaz de abusar de uma menor. “O que acho disso? Acho nojento. Para mim, não tem perdão. E juro pela minha neta, que é o mais sagrado que tenho, que estou inocente.”
ACUSAÇÕES
ALICIADA POR CARTA
Ana, a alegada vítima de abuso sexual, terá sido a destinatária de uma carta, alegadamente escrita em Maio, onde a aliciavam a praticar sexo mediante pagamento. A carta entregue na escola caiu nas mãos dos educadores que imediatamente a entregaram aos agentes da PSP da Esquadra do Barreiro.
REFORMADO
Fernando D. nasceu em Lisboa e começou a trabalhar aos 14 anos, diz. “Trabalhava com vidro”, conta, referindo que se mudou para o Lavradio há 33 anos, quando lhe ofereceram emprego numa fábrica da zona. Reformado há dez anos, faz pequenos biscates.
SEPARADO
Fernando D. está separado há três anos. “Ela fartou-se e foi-se embora”, diz. Mas os vizinhos contam uma história diferente: “Estava farta de ser maltratada e foi para Coimbra, onde está internada.” Fernando refere que a filha pode confirmar que ele nunca bateu na mulher.
'CORCUNDA' MUITO SIMPÁTICO
Residente no Lavradio, Barreiro, há 33 anos, Fernando D. é bem conhecido na localidade. Alguns chamam-lhe ‘Fernando Corcunda’, devido à curvatura que apresenta nas costas; outros conhecem-no essencialmente pelas máscaras que exibe no Carnaval. Sempre de mulher. “Já quando era jovem me vestia de mulher. E em casado usava as roupas da minha esposa. Depois passei a usar as da minha filha”, confirma o próprio ao CM.
Bom vizinho para todos, muito simpático, até demasiado, para alguns, Fernando surpreendeu ao ser acusado por uma menor de violação. “Sempre pensei que gostava muito de mulheres”, refere uma vizinha, que quando o encontra é muito “apaparicada” por ele. Outra, moradora no prédio do acusado, indica que também nunca suspeitou e “no dia em que dizem que ele a terá violado não ouvi nem dei por nada.”
Já estupefacta ficou uma funcionária do café que Fernando frequenta. “Se é verdade só lhe posso dizer que nós nunca sabemos com quem estamos a lidar. E eu estou chocada.”
JUDICIÁRIA ESPERA RELATÓRIO
A Polícia Judiciária de Setúbal não vai tomar nenhuma atitude mais ‘dura’ até ser conhecido o relatório referente à violação da menor, reportada pela queixa apresentada na quinta-feira na PSP do Barreiro. Recorde-se, tal como o CM ontem noticiou, que a mãe da jovem de 12 anos foi com ela ao Hospital Dona Estefânia, mas ontem à noite o relatório referente à violação ainda não tinha sido produzido pelo técnico de Medicina Legal. Já quanto a eventuais atrasos na investigação de um caso começado em Maio, uma fonte policial garantiu que logo na altura as duas jovens que tinham reportado as perseguições por parte do idoso agora objecto da queixa de violação foram chamadas na altura ao Tribunal do Barreiro para declarações, mas terá havido testemunhos contraditórios quanto à conduta do suspeito. Em contrapartida, a PJ veio a tomar posse de um bilhete manuscrito, onde surgia um convite para práticas sexuais a troco de dinheiro. O bilhete terá sido entregue pelo suspeito a uma menor para o fazer chegar a uma das queixosas, mas a autoria desta mensagem ainda não está provada.
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