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Correio da Manhã

Portugal
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Eu sou um homem bom

Foi intenso o “jogo psicológico” e meticulosa até a forma como foi preparado o interrogatório de António Costa. O ex-militar da GNR foi levado a confessar os crimes a Almeida Rodrigues, subdirector da PJ de Coimbra, que ontem, no Tribunal da Figueira, reconheceu ter havido alguma teatralização, para que a investigação chegasse a bom porto.
14 de Junho de 2007 às 00:00
A entrada do arguido em tribunal foi pacífica. Acompanhado dos guardas prisionais, o suspeito chegou e seguiu para a sala de audiências. Sem grande concentração de populares à porta, escapou aos apupos que marcaram as duas primeiras sessões do julgamento.
A entrada do arguido em tribunal foi pacífica. Acompanhado dos guardas prisionais, o suspeito chegou e seguiu para a sala de audiências. Sem grande concentração de populares à porta, escapou aos apupos que marcaram as duas primeiras sessões do julgamento. FOTO: Raul Cardoso
“Precisávamos de saber onde estava o cadáver da Joana. Só ele é que nos podia dizer, mas sabíamos que a confissão era difícil”, recordou o responsável da PJ que, durante cerca de uma hora, descreveu pormenorizadamente a investigação que dirigiu e que levou à detenção do cabo da GNR, indiciado pela morte de três jovens. “Houve alguma teatralização naquilo tudo, até na forma cerimoniosa como o inspector-chefe me tratou. Mas era fundamental que ele [António Costa] se abrisse”.
Almeida Rodrigues esclareceu depois que António Costa começou por negar os crimes. Mas que acabou por os confessar quando foi confrontado com a forma como queria ser recordado. “Eu disse-lhe que ele ia ser lembrado na terra como um assassino. Mas que também podia ser recordado como um homem bom que teve um deslize. Tinha de escolher e ele respondeu-me logo “eu sou um homem bom”. Era assim que queria ser lembrado”.
No interrogatório de ontem, o subdirector da PJ recordou também a frieza do arguido ao confessar os crimes. “Tenho 25 anos de polícia e já vi muitos presos chorarem. Mas este arguido chorou claramente quando lhe deu jeito. Foi encenado”.
Também Vitalino Domingues, o inspector-chefe da PJ ontem ouvido em tribunal, garantiu que a falta de sensibilidade do arguido o marcou. “Na perspectiva dele, elas é que eram culpadas porque o ameaçaram”, afirmou.
O investigador da PJ disse ainda que as conversas que manteve com António Costa o impressionaram. “Durante anos chefiei a brigada de homicídios e interroguei muitas pessoas que mataram por vingança, por ciúmes, pelos mais variados motivos. Alguns mostravam arrependimento, outros não, mas este era diferente. Não havia ódio, nem arrependimento, nem vingança. Nunca vi uma coisa assim. Ele estava à vontade, tinha morto porque sim”.
No mesmo depoimento, o elemento da PJ lembrou ter tomado precauções especiais no dia da reconstituição onde o arguido participou. “Ia ser feita ao pé do rio e cheguei a pensar que ele se podia suicidar. Pedi a dois inspectores para não o perderem de vista, para estarem sempre entre ele e o rio. Pensei que se emocionasse, que pudesse vacilar. Acabei por dispensar os inspectores quando percebi que não, ele continuava calmo, não tinha emoções”.
NERVOSO E INCONSTANTE NA SALA
António Costa estava nervoso. Mexendo-se insistentemente na cadeira, o arguido não conseguia esconder o desconforto pelas declarações dos investigadores da PJ. Abanava frequentemente a cabeça e, por duas ou três vezes, benzeu-se. Riu-se também. Muito e várias vezes. A advogada bem lhe fazia sinal para que mantivesse a calma, mas António Costa não escondia o nervosismo. Chegou mesmo a falar durante a audiência, ainda que as suas palavras não fossem perceptíveis. Mais uma vez, a advogada mandou-o calar e Costa tentou manter a calma. Em silêncio, depois de ter dito aos juízes que não queria prestar mais declarações. O julgamento continua agora para a semana, altura em que será ouvida a médica-legista que fez a autópsia ao corpo de Cristina. Encontrado na praia da Figueira, com o fígado dilacerado e marcas de uma agressão violenta.
FOTOGRAFIA AÉREA NA SECRETÁRIA
António Costa foi levado para interrogatório no gabinete de Almeida Rodrigues, subdirector da PJ de Coimbra. Por se tratar de um militar da GNR, a PJ acreditava que a “autoridade” de um superior hierárquico poderia levar o arguido a confessar. Para que o cenário fosse completo, na secretária de Almeida Rodrigues só existia uma fotografia aérea da zona à volta da casa de António Costa. “Queríamos que ele pensasse que tínhamos meios de vigilância aérea. Que ele acreditasse na força das nossas provas”, recordou o responsável durante o julgamento. António Costa terá sido depois confrontado com o perfil do “assassino em série”. Onde estava escrito que guardava sempre algo das suas vítimas. “Foi aí que ele me disse que tinha guardado uma caneta da Isabel. Disse-nos exactamente onde estava e fomos buscá-la”, concluiu Almeida Rodrigues.
PORMENORES
MOBILIZAÇÃO
Na próxima sessão, quarta-feira, é esperada uma grande mobilização de moradores de Santa Comba Dão. Está a ser organizada uma “excursão” ao Tribunal da Figueira, como forma dos habitantes da terra se solidarizarem com os familiares das vítimas.
RAPIDEZ
Os familiares das jovens pediam ontem que o julgamento terminasse rapidamente. “É um sofrimento muito grande isto tudo, só queria que acabasse para fazermos o luto”, disse ao ‘CM’ um tio de Mariana.
AUSÊNCIA
A ausência de familiares de António Costa no julgamento voltou a ser notada. Nem a mulher nem o filho assistiram à audiência.
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