Mataram-me o marido. Entrou a andar no Hospital de Chaves, fez o exame e nunca mais se pôs de pé. Foi o fim dele.” É com estas declarações que Ondina Pereira chora a morte de Joaquim Esteves Coelho, ocorrida a 1 de Maio de 2005. O caso está a ser investigado pelo Ministério Público e a direcção clínica do Hospital aguarda pelos resultados para se pronunciar. No entanto, vai dizendo que o exame – colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) – é “perigoso” porque tem riscos.
A viúva e os filhos deste emigrante, de 76 anos – que fez vida por terras de Angola e do Brasil antes de regressar à terra natal, Chaves – acusam aquele hospital de “erro médico”. “O meu pai sempre foi uma pessoa saudável, cheia de vida, que se queixava às vezes de dores de estômago”, diz Joaquim Coelho, professor no Rio de Janeiro que, desde então, vive à base de antidepressivos. “O meu pai foi vítima de tentativa de homicídio devido a erro médico. O Hospital não informou a família sobre os riscos do exame clínico nem assinámos qualquer declaração de consentimento a autorizá-lo.”
Ondina, acrescenta: “Fez o exame a 3 de Março e pouco depois começou a inchar. Alertei o médico de família, mas nada fez. No Hospital, um médico só disse que era grave. Ao fim de duas semanas foi transferido para os Cuidados Intensivos do Hospital de Santo António. Não o puderam salvar. O que o matou foi o maldito exame e só queremos justiça, porque já não podemos tê-lo de volta.” O diagnóstico, diz o filho, “foi uma peritonite aguda edematosa”.
O advogado da família, Paulo Ramalho, não presta declarações devido ao facto de o caso estar em segredo de Justiça. No entanto, do lado do Hospital, Gil Neves, director clínico, afirma: “Não posso garantir que o doente tenha morrido devido ao exame. Surgiram complicações, dentro das previsões. Aliás, mais de metade dos doentes que o faz acaba por morrer. Compete ao Tribunal investigar se foi bem executado e bem indicado.”
COMPLICAÇÕES SÃO FREQUENTES
A realização de uma colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) não se justifica, segundo o gastrenterologista Alberto Santos, em casos de gastrite, uma doença que, segundo Ondina Pereira, padecia o marido, Joaquim Coelho. Para o especialista e membro da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, este exame médico de diagnóstico é também terapêutico “só é feito quando outros exames [laboratoriais, TAC, ecografias] não esclarecem a causa das dores abdominais”.
Tal como todos os exames de diagnóstico invasivos – por exemplo, endoscopias, de otorrino ou ginecológicos, que implicam a introdução de meios para análise –, provocam efeitos secundários.
Neste caso, a complicação mais frequente – em dez por cento das situações – é a pancreatite aguda, uma inflamação do pâncreas que, em muitos casos pode evoluir para a morte.
Apesar dos riscos inerentes à sua realização, o especialista do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa não defende a informação dos riscos ao doente: “Se lhe dissermos todos os riscos que corre não vai querer fazê-lo. Temos de ponderar o risco e o benefício da sua realização.” Quanto à questão da assinatura de uma declaração de consentimento informado, Alberto Santos garante que não é obrigatória.
COLONOSCOPIA
A filha de um doente do Hospital Garcia de Orta, Maria do Rosário Campaniço, acusou em 2005 aquela unidade de saúde de negligência na morte do pai, que se submetera a uma colonoscopia. Para a extracção de pólipos no intestino, José Campaniço sofreu uma perfuração do intestino, que lhe terá provocado uma peritonite e, daí, uma septicemia.
CATETERISMO
Uma doente cardíaca, Felismina Santos, 52 anos, morreu 48 horas após ter feito um cateterismo no Hospital Curry Cabral. A morte terá sido provocada por um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O Hospital alegou ter sido um caso raro.
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