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Correio da Manhã

Portugal
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Exaustão hospitaliza dois jovens do curso de Comandos

Soldados ambos de 20 anos eram instruendos do 138º curso e estavam no seu terceiro dia.
Sérgio A. Vitorino 9 de Setembro de 2022 às 01:30
Treino físico intenso é uma das principais características dos cursos de Comandos. Visa preparar os militares para um combate duro
Exército promete acompanhamento
Hugo Abreu, da mesma idade, era natural da Madeira
Dylan Silva tinha 20 anos
Treino físico intenso é uma das principais características dos cursos de Comandos. Visa preparar os militares para um combate duro
Exército promete acompanhamento
Hugo Abreu, da mesma idade, era natural da Madeira
Dylan Silva tinha 20 anos
Treino físico intenso é uma das principais características dos cursos de Comandos. Visa preparar os militares para um combate duro
Exército promete acompanhamento
Hugo Abreu, da mesma idade, era natural da Madeira
Dylan Silva tinha 20 anos
Dois soldados do Exército sofreram, na quarta-feira, paragens - um cardiorrespiratória e o outro respiratória - na ‘prova zero’ do curso de Comandos, do qual são instruendos, confirmaram ao CM fontes oficiais do Exército e do INEM. João N. e Rodrigo A., ambos de 20 anos, foram reanimados por socorristas militares, no Quartel da Carregueira, em Sintra. O INEM encontrou os jovens inconscientes mas com sinais vitais. Um deles está sedado e entubado no Hospital de São Francisco Xavier. O Exército abriu um “processo de averiguações urgente”. Em causa poderá estar exaustão pelo acumular de treino físico nos primeiros três dias do curso, que começou segunda-feira. Em consequência, “foi determinado o aligeiramento substancial da carga física, e se necessário a não realização de algumas sessões”, assegura.

O militar em estado mais grave, João N., “sentiu-se indisposto aos 2,7 km” de uma marcha e corrida - as famosas Marcor - de 5 km. Eram 17h50 e a prova já levava 31 minutos. Foi levado pelos socorristas para a unidade de saúde do Regimento de Comandos, no mesmo quartel, onde um médico e um enfermeiro militares detetaram “alteração do estado de consciência” e realizaram “manobras de reanimação”, refere o Exército.

O INEM foi chamado às 18h36. Às 18h45 uma ambulância e, pouco depois, a viatura médica do Hospital de São Francisco Xavier, chegaram ao local. João N. foi transportado para esse hospital, onde ontem, diz o Exército, se encontrava “internado em Unidade de Cuidados Intensivos, mantendo-se em vigilância, sedado e ventilado, com um perfil hemodinâmico estável”.

Pelas 20h03, durante o jantar, foi a vez de Rodrigo A. se sentir “indisposto”. Foi encaminhado para a mesma enfermaria no Regimento, onde o Exército explicou inicialmente ter sofrido “uma interrupção súbita das funções cardíaca e respiratória”, corrigindo mais tarde para “interrupção respiratória”, “prontamente revertida pela rápida atuação da equipa médica presente no local”. O INEM foi chamado “por necessidade de avaliação complementar” - exames em meio hospitalar para se perceber porque também este jovem entrou em paragem. Foi levado, acompanhado por viatura médica, para o Hospital Amadora-Sintra. Ficou “em observação” e “estável”. Teve alta ao início da tarde de ontem, ficando sob acompanhamento no Regimento de Comandos.

“Conforme procedimento obrigatório, foi imediatamente iniciado um Processo de Averiguações urgente sobre estas ocorrências”, diz o Exército.

Setembro é um mês negro para os comandos. Neste mês, em 2014, problemas no 123º curso levaram à acusação do Ministério Público contra quatro instrutores. Em 2015, também em setembro, uma dezena de instruendos foi hospitalizada após as Marcor da ‘prova zero’ do 125º curso - um socorrista está acusado pelo Ministério Público. E, no ano seguinte, em setembro, os instruendos Dylan Silva e Hugo Abreu, ambos de 20 anos, do 127º curso, morreram após um golpe de calor: excessivo exercício físico e pouca hidratação para os 40 graus que se faziam sentir no Campo de Tiro de Alcochete. Estas mortes - e ferimentos noutros instruendos - levaram ao julgamento de 19 militares dos Comandos. Três deles foram condenados a penas suspensas entre os dois e os três anos, por abuso de autoridade com agressões. O Estado pagou 400 mil euros de indemnização aos pais de Dylan e de Hugo. Estas mortes levaram a mudanças no curso, com os Comandos a deixarem de treinar a sede, mantendo a dureza que os caracteriza e prepara para as missões em que a resistência física e mental fazem a diferença. Já em 1988 tinham ocorrido duas mortes por exaustão no 89º curso. E em 1990 uma outra. Isso levou à extinção, em 1993, do Regimento de Comandos, reativado em 2002. n


curso muito exigente a nível físico e mental
Tem vários nomes: prova de choque; prova zero; prova da sede; ou prova de aptidão Comando. Os primeiros três dias do curso colocam os instruendos nos limites físicos e mentais, dada a sucessão de exercícios - principalmente marchas. O curso prolonga-se por 14 semanas. A percentagem de desistências é superior a 50%. n

Exército disponível para apoiar famílias
O Exército afirma que “foram informados os familiares dos militares”. E disponibiliza-se “para fornecer [às famílias] todo o apoio e acompanhamento relativo à situação clínica dos militares”, revela fonte oficial ao CM.

Sentiu-se mal na famosa Marcor
A Marcor (marcha e corrida) e a Marfor (marcha forçada) são provas clássicas, estando regulamentadas. São usadas no treino de infantaria para força e resistência.

Unidade de elite faz 60 anos
Os Comandos marcam este ano o 60º aniversário. Unidade de elite, de combate em condições muito difíceis, têm por isso um treino duro e exigente.

Histórico de mortes e acusações
Setembro é um mês negro para os comandos. Neste mês, em 2014, problemas no 123º curso levaram à acusação do Ministério Público contra quatro instrutores. Em 2015, também em setembro, uma dezena de instruendos foi hospitalizada após as Marcor da ‘prova zero’ do 125º curso - um socorrista está acusado pelo Ministério Público.
E, no ano seguinte, em setembro, os instruendos Dylan Silva e Hugo Abreu, ambos de 20 anos, do 127º curso, morreram após um golpe de calor: excessivo exercício físico e pouca hidratação para os 40 graus que se faziam sentir no Campo de Tiro de Alcochete. Estas mortes - e ferimentos noutros instruendos - levaram ao julgamento de 19 militares dos Comandos. Três deles foram condenados a penas suspensas entre os dois e os três anos, por abuso de autoridade com agressões. O Estado pagou 400 mil euros de indemnização aos pais de Dylan e de Hugo. Estas mortes levaram a mudanças no curso, com os Comandos a deixarem de treinar a sede, mantendo a dureza que os caracteriza e prepara para as missões em que a resistência física e mental fazem a diferença. Já em 1988 tinham ocorrido duas mortes por exaustão no 89º curso. E em 1990 uma outra. Isso levou à extinção, em 1993, do Regimento de Comandos, reativado em 2002.
Dylan Silva Exército e do INEM João N. Comando Rodrigo A. Quartel da Carregueira Sintra Estado
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