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Exercício físico previne regresso do cancro

No segundo andar do Centro de Congressos Orange County, em Orlando, na sala D2, Rowan Chlebowski, oncologista do Instituto de Pesquisa Biomédica de Los Angeles, apresentou ontem os resultados de um estudo que pode mudar a forma de pensar a relação entre dieta alimentar e cancro da mama.
17 de Maio de 2005 às 00:00
Passear, dar umas corridinhas ou fazer outro tipo de exercício físico leve pode prevenir o cancro
Passear, dar umas corridinhas ou fazer outro tipo de exercício físico leve pode prevenir o cancro FOTO: Arquivo CM
Depois de um trabalho de mais de dez anos, que contou com a participação de cerca de duas mil mulheres com idades entre os 48 e os 79 anos, concluiu que a ingestão de alimentos com menos gordura pode diminuir o risco de recorrência do cancro da mama em mulheres que já tiveram a menopausa. “E pode mesmo representar a primeira mudança de estilo de vida capaz de ter um efeito favorável nos resultados deste tipo de cancro”, explica o investigador.
De acordo com o estudo, uma dieta baixa em gorduras – cerca de 33,3 gramas diárias – permitiu evitar novos episódios da doença em 12,4 por cento dos casos menos graves e em 42 por cento das situações consideradas com pior prognóstico.
Um trabalho que promete continuar, mas que, para já, deixa Chlebowski confiante que a alteração dietética pode tornar-se “uma opção adicional no controlo dos riscos da doença”.
SOBREVIVENTES
Todos os anos, são milhares as mulheres diagnosticadas com cancro da mama e milhares os homens que se confrontam com o cancro da próstata. Mas são milhões aqueles que, em todo o Mundo, sobreviveram à doença. Isso não significa que a luta tenha chegado ao fim. O regresso do cancro é um fantasma sempre presente e no dia em que a reunião da American Society of Clinical Oncology (ASCO) chega ao fim, o tema volta a ser discutido.
Conseguir mais tempo e maior qualidade de vida para os sobreviventes é um dos grandes objectivos da Medicina actual, que procura novas alternativas para o controlo do risco nestes doentes.
Jeffrey Meyerhardt, especialista no Instituto do Cancro Dana-Farber, em Boston, justifica o facto com o “aumento do grau de evidência de que cada vez pode fazer-se mais para evitar o reaparecimento da doença”.
Uma delas e o exercício físico. Para quem sofre com cancro do cólon, pode mesmo baixar o risco entre 40 a 50 por cento. Para isso, basta jogar ténis umas horas por semana, correr ou caminhar durante uma hora, seis vezes por semana. O conselho resulta de um estudo liderado por aquele especialista, divulgado hoje, e que, pela primeira vez, apresenta o exercício como importante na prevenção da doença, mas também como ajuda no tratamento de quem dela sofre.
Para os que enfrentam o cancro, fica a esperança. As possibilidades terapêuticas multiplicam-se, afinam-se os tratamentos e garante--se que, para o ano, a reunião da ASCO será, novamente, palco para mais descobertas no caminho do sonho mais procurado: a cura.
PORTUGUESES FAZEM BALANÇO
“Esta é a reunião mãe da oncologia”, diz Helena Teleira, oncologista do Hospital de Viana do Castelo. Estreante na reunião da ASCO, a especialista em cancro da próstata, rim e bexiga, está impressionada com a quantidade de informação, proporcional à grandeza do espaço e número de participantes. “Já ouvi falar aqui de medicamentos que desconhecia e parece-me que o futuro dos tratamentos pode passar por alguns deles.” No último dia, é tempo para fazer um balanço.
“Falou-se de novas terapêuticas e como vão integrar-se no tratamento”, refere Lígia da Costa, oncologista do Hospital de Cascais, também presente. Acrescenta que 2005 é um ano “de viragem”, com tratamentos cada vez mais por medida. Teresa Cruz, do Curry Cabral, em Lisboa, concorda. “Não quer dizer que se mudem logo as atitudes, mas o congresso é importante porque ajuda a repensar atitudes em termos de terapêuticas.”
MÉDICOS RECONHECEM LACUNAS
“Todos os seres humanos devem ser respeitados e é responsabilidade dos médicos tratar um doente como se fosse a única pessoa no mundo que interessa.” Ruth Yorkin-Drazen sabe do que fala. Durante dez anos acompanhou o marido numa dura batalha contra o cancro da próstata. Para esta realizadora de 87 anos, a morte dele, em 1987, marcou o início de um trabalho de educação dos profissionais de Medicina sobre a importância da comunicação com doentes terminais.
Diz que os médicos podem não conseguir curar o cancro, mas devem fazer sentir “que alguém partilha a dor dos doentes”. Mas nem todos os clínicos sabem falar com os doentes. E são os primeiros a admiti-lo. No trabalho de Christopher Daugherty, da universidade de Chicago, baseado num inquérito a 559 médicos americanos, 97 por cento referiu que ensinar a melhor forma de comunicar com os doentes devia ser incluído na sua formação.
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