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Correio da Manhã

Portugal
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EXISTE UMA FORTE VONTADE DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL

Jorge Sá, sociólogo, explica que as manifestações de solidariedade social são resultado de uma carência de instituições que permitam que todos participem na sociedade.
4 de Julho de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Como é que, na sua opinião, se criam movimentos de solidariedade como esta para ajudar a Mariana, que surgiu quase de forma expontânea?
Jorge Sá – Estas ondas não são assim tão expontâneas. Na sua base há sempre alguma organização, ou da parte da família, ou de amigos e conhecidos. E não é grande surpresa ou novidade, já que estas são práticas comunitárias habituais no mundo rural. Na cidade, onde ninguém se conhece, onde existe cada vez mais isolamento social, é que as coisas se tornam mais difíceis.
– E como é que se explica que muitos dos que têm contribuído para ajudar a Mariana não conheçam a família pessoalmente ou tenham relação com ela, tomando conhecimento apenas através do jornal?
– Aqui, o papel da mediatização foi determinante. Numa sociedade como a nossa, caracterizada por uma forte despersonalização, em que as relações são cada vez mais anónimas, o trabalho dos media dá a proximidade que se pode encontrar em meios mais pequenos, onde todos se tratam por tu e sabem o que se passa na casa ao lado. Foi isso que aconteceu neste caso e se repete muitas vezes.
– Em termos sociais, que significado é que essa participação em movimentos de solidariedade pode ter?
– Primeiro que tudo, indica que a sociedade não está suficientemente organizada. A começar pelo sistema de saúde, que não teve capacidade para dar resposta ao problema da criança. Depois, revela também que, resultado de uma organização deficiente, existe uma forte vontade de participação social.
– Trata-se então de uma sede de participação?
– Sim e isso acontece sobretudo porque existem poucas formas e locais para o fazer. Ajudar os outros torna-se, então, uma solução. Isto implica ainda perceber que este Mundo que é o nosso não tem mecanismos institucionais suficientes e capazes de fazer frente a essa vontade. Porque vivemos numa sociedade que apresenta cada vez mais características urbanas, pautada pelo isolamento social, que tende a ser compensado com acções de solidariedade.
– Mas existem no nosso país várias instituições de carácter social que receberiam de bom grado toda a ajuda possível.
– Sim, realmente existem muitas, mas elas não funcionam de forma contínua e com capacidade de apelar às pessoas. O que acontece é que não chegam ao destinatário. E isto pode ser explicado pela pequenez, ou porque são muito pobres naquilo que se chama marketing social e de causas, ou ainda pela falta de associativismo que existe entre nós. O que é que adianta ter uma acção qualquer e ninguém saber que ela existe? A comunicação teria que ser feita de forma a que as pessoas se apercebessem que há locais apropriados que permitem a participação social, o que não acontece.
– O que é preciso para inverter essa situação? É uma questão de educação?
– É preciso tomar consciência da importância da comunicação e do que ela pode originar. E não se trata apenas da comunicação de massas. Há outras formas a que se pode recorrer. Não podemos esquecer que existe o correio massivo, o telemarketing e até mesmo a relação pessoal e interpessoal, a conversa. Tudo isto são maneiras de dar a conhecer situações, mas que as instituições no nosso país não usam.
– Podemos então dizer que estas manifestações expontâneas são então naturais e reflexo de alguma carência?
– Elas percebem-se no quadro social em que vivemos. O Mundo de hoje já não é a aldeia global de antigamente, mas sim uma cidade virtual, onde se perderam determinados laços. Por isso, surgem relações diferentes. Entra-se, por isso, num campo em que as pessoas se manifestam desta maneira porque não têm outra forma de o fazer.
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