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Correio da Manhã

Portugal
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FAMÍLIA DESCONFIA DE MORTE EM ESQUADRA

Um homem de 33 anos enforcou-se anteontem com o cinto das calças, quando se encontrava sozinho dentro de um quarto de detenção da Esquadra da PSP de Aveiro, informou esta polícia.
25 de Novembro de 2004 às 00:00
O indivíduo tinha sido detido às 14h45, “por sobre o mesmo existir um mandado judicial, para cumprimento de uma pena de dois anos”, que se referia a tráfico de droga.
O porta-voz da Direcção Nacional da PSP, comissário Alexandre Coimbra, avançou que já no interior das instalações policiais foi efectuada uma revista de segurança ao detido, na qual foi “encontrado um saco com 1,30 gramas de heroína”, quantidade que já é considerada como tráfico. Por esse motivo teve de ser notificado o Ministério Público, o que atrasou o seu transporte até ao Estabelecimento Prisional de Aveiro.
“Pelas 17h10, quando um agente passava ronda ao local onde se encontrava o detido, verificou que o mesmo estava suspenso pelo cinto”, revela a PSP.
A família de Venâncio Joaquim Ramalho não acredita que ele se tenha enforcado. “O meu filho não queria morrer e mesmo que quisesse pôr termo à vida, tinha-o feito em casa, não precisava de ir para uma esquadra”, conta ao CM Clementina Lopes, mãe.
De acordo com os familiares, a “história está muito mal contada” já que nem sabiam que ele tinha voltado a ser detido. “O Venâncio já tinha estado preso duas vezes, mas não sabia que o tinham vindo buscar novamente”, explica Clementina Lopes, que se interroga como é que o filho ainda tinha o cinto quando costuma ser o primeiro objecto que os polícias retiram aos detidos.
Sobre a droga que Venâncio trazia, a mãe responde que ele era consumidor mas não traficante já que se assim fosse “seria rico”.
Clementina Lopes afirmou ao CM que a família vai contratar um advogado, para ajudar a esclarecer a morte do filho, já que não acredita no que a PSP lhe comunicou.
O comissário Alexandre Coimbra explica que devido à ocorrência de um assalto numas bombas de gasolina em Aveiro, os elementos que estavam com o detido tiveram que se ausentar, já que se tinham cruzado minutos antes com os supostos assaltantes.
“Como tiveram que sair não puderam tirar-lhe o cinto”, explica, avançando que na PSP já está a decorrer um inquérito interno para apurar eventuais responsabilidades.
CELAS FACILITAM
Todos os anos, a Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI), nos relatórios anuais, alerta para a falta de condições das zonas de detenção de algumas esquadras, sublinhando a existência de “pontos de suspensão” que podem “favorecer os suicídios”.
No ‘Relatório de Actividades 2003’, a IGAI é, mais uma vez, clara: “portas e janelas com grades e/ou com rede de malha”, não obedecem aos critérios definidos no Regulamento das Condições Materiais de Detenção e são “susceptíveis de favorecer os suicídios”. Como o são “torneiras não embutidas e peças com arestas”, acrescenta. Em 2002, a IGAI registou três suicídios em postos da PSP e GNR e nenhum no ano passado. Em 2001 ocorreram dois suicídios e em 2000 outros tantos.
HISTORIAL
DUAS VEZES DETIDO
Venâncio Joaquim Ramalho já tinha estado preso duas vezes, por tráfico de droga. Primeiro cumpriu uma pena de dois anos e na segunda vez esteve quatro anos na prisão. Foi posto em liberdade condicional em 2002 e desde então não tinha conseguido arranjar trabalho, continuando a viver com a mãe.
POLÍCIA IMPLICAVA
A mãe do detido afirma que o filho não se metia na vida de ninguém. No entanto, lembra que desde que foi preso pela primeira vez que a polícia andava sempre a rondar a casa e que “implicava constantemente com ele”.
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