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Correio da Manhã

Portugal
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Família escapa às chamas em Penacova

Dois homens e uma mulher não conseguiram fugir de aldeia e abrigaram-se duas horas e meia num viaduto.
Paula Gonçalves, A.I.F. e J.D. 29 de Outubro de 2017 às 08:45
Joaquim Bernardes
Jorge Duarte
Os três sobreviventes junto à casa destruída pelo fogo. Joaquim Bernardes, com grandes dificuldades de locomoção, e o casal Jorge e Irene
Os três sobreviventes junto à casa destruída pelo fogo. Joaquim Bernardes, com grandes dificuldades de locomoção, e o casal Jorge e Irene
Joaquim Bernardes
Jorge Duarte
Os três sobreviventes junto à casa destruída pelo fogo. Joaquim Bernardes, com grandes dificuldades de locomoção, e o casal Jorge e Irene
Os três sobreviventes junto à casa destruída pelo fogo. Joaquim Bernardes, com grandes dificuldades de locomoção, e o casal Jorge e Irene
Joaquim Bernardes
Jorge Duarte
Os três sobreviventes junto à casa destruída pelo fogo. Joaquim Bernardes, com grandes dificuldades de locomoção, e o casal Jorge e Irene
Os três sobreviventes junto à casa destruída pelo fogo. Joaquim Bernardes, com grandes dificuldades de locomoção, e o casal Jorge e Irene
Uma família residente em Lufreu, Penacova, esteve duas horas e meia deitada no asfalto na parte inferior de um viaduto para se proteger das chamas que, na noite de 15 de outubro, cercavam o local. Sofreram lesões nos olhos e ficaram com as roupas queimadas, mas sobreviveram. "Foi aquele viaduto que nos salvou a vida", acredita Jorge Duarte, de 75 anos, que ali se refugiou com a mulher, Irene, de 71, e o cunhado Joaquim Bernardes, de 75.

Com a aldeia em chamas e sem água para as combater, a população viu-se obrigada a fugir. Esta família ficou para trás porque Joaquim Bernardes tem grandes dificuldades de locomoção. "Um vizinho levou-o às costas e eu ia a pegar nas pernas, mas de vez em quando tínhamos de parar", conta Jorge Duarte. Nessa altura, acrescenta a mulher, Irene Duarte, "estava tudo a arder". A casa de Joaquim Bernardes já estava totalmente destruída pelo fogo e a família já fugiu com grande custo da aldeia em chamas. "Fugimos a pé mas tínhamos de ir aninhados no chão porque as chamas, tocadas com o vento, passavam-nos por cima", recorda Irene Duarte.

Quando chegaram ao viaduto, já não conseguiram passar. "O fogo estava em todo o lado. Estivemos deitados no alcatrão, com as fagulhas a passarem por nós como se fossem granizo", descreve Jorge Duarte. Irene lembra que tinham chamas "de um lado e do outro". O cenário descrito é dantesco: "Fazia uma corrente de ar quente enorme, as fagulhas caíam em cima de nós e víamos as chamas passarem ao nosso lado. O meu irmão ficou com a roupa interior toda queimada". Irene não tem dúvidas: "Se não fosse o viaduto ficávamos reduzidos a cinzas". Protegidos pelo betão, sofreram apenas lesões nos olhos devido ao fumo, tendo sido assistidos no centro de saúde.

A aldeia perdeu um dos habitantes. António Ferreira, 82 anos, sofreu queimaduras graves ao tentar salvar tratores e animais e morreu no hospital. A população está traumatizada. Júlia, uma das habitantes diz que sofreu "uma tortura tão forte" que à noite quando tenta dormir ainda ouve "o barulho de coisas a estoirarem". E acredita que o trauma não irá passar tão depressa: "Não vai desaparecer… as coisas que rebentavam continuam a ser bombas na minha cabeça".

Operacionais combateram mais de 50 incêndios
Centenas de bombeiros foram ontem mobilizados para combater mais de meia centena de incêndios florestais que deflagraram sobretudo no Centro do País.

A rápida mobilização de meios, terrestres e também aéreos, fez com que as chamas rapidamente ficassem controladas.

Colégio e grupo de Águeda ajudam nove famílias da aldeia de Ânsara
Foi uma reportagem da CMTV sobre o drama vivido nos incêndios pela população de Ânsara, em Vouzela, que levou a que o colégio de Lourdes, em Santo Tirso, e um grupo de pessoas de Águeda decidissem apoiar as nove famílias daquela aldeia.

O colégio de Lourdes conseguiu reunir várias máquinas agrícolas e outros materiais, que ontem foram entregues. "O objetivo é que estas pessoas possam voltar a trabalhar na terra e a ter o seu sustento", disse o professor Duarte Almeida, que promete não esquecer a aldeia.

Alcina Santos, uma moradora, não escondia a alegria. "Não tenho palavras, estas pessoas foram enviadas por Deus", disse.

Lucros de lenha e resina não revertem para o pinhal
O Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) recebeu, no ano passado, 1,35 milhões de euros de receita da venda de madeira e resina no Pinhal de Leiria. Em 2015, os lucros tinham sido de 990 mil euros. Porém, esta fonte de rendimento reverteu pouco para a mata que a gerou: desde 2011 que não há qualquer investimento na mata nacional.

"No período 2004-2011, foi feito um investimento de 1 710 000 euros [no pinhal de Leiria]", disse o ICNF ao CM, não adiantando qualquer intervenção desde essa altura.

A devastação causada pelo fogo de 15 de outubro, que destruiu 85% dos 11 mil hectares que compõem a mata nacional, já obrigou a tutela a mudar o paradigma. Antes do incêndio, estava já aprovado um investimento de 1,6 milhões, que vai agora incidir na limpeza do hectare e meio de mata que escapou à destruição. Depois de "terem sido identificadas necessidades de intervenção", adiantou o ICNF, foram aprovados mais dois investimentos com orçamento total de um milhão de euros.

Rogério Rodrigues, presidente do ICNF, que tutela as matas nacionais, lamenta que não haja reforço de meios de vigilância no pinhal "há anos". "Os meios poderiam ser mais", admitiu o responsável, considerando que a redução de verbas é "transversal a toda a Função Pública". Tem nove assistentes e um técnico superior para as matas de Leiria, Pedrógão, Urso e do Casal da Lebre. Rogério Rodrigues recorda que "as matas já tiveram centenas de trabalhadores, hoje têm dezenas".

PORMENORES 
Algarve envia palha e fruta
A Câmara de Silves e vários empresários do concelho angariaram 350 fardos de palha para criadores de gado afetados em Penacova. Serão ainda enviadas 130 caixas de laranjas, 32 de tângeras, 20 de tomate, 20 de pepinos, 20 de pimentos, 15 de beringelas e 60 de dióspiros.

Futebol solidário
Tondela, Académico de Viseu, Lusitano de Vildemoinhos e Mortágua, quatro dos maiores clubes do distrito, vão disputar um torneio de futebol a 17 e 18 de novembro. As receitas revertem para os bombeiros.

Temperaturas altas
As temperaturas vão manter-se altas para esta altura do ano, mas começam a registar ligeiras descidas. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a região mais quente hoje será Santarém com os termómetros ainda nos 30 graus.

Alimento para animais
Mil e duzentos rolos de palha – cada um equivalente a oito fardos – estão a ser recolhidos na Figueira da Foz para ajudar na alimentação do gado bovino nas zonas afetadas pelos incêndios. O empresário que fez a oferta mantém o anonimato.

Reconstrução de casas
O Governo deverá aprovar quinta-feira o modelo de reconstrução das habitações permanentes atingidas pelos incêndios do dia 15. No caso do estrago não ser muito grande caberá aos proprietários avançarem com as reparações, que serão comparticipadas pelo Estado.
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