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Correio da Manhã

Portugal
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Família no tráfico de armas

Num extenso despacho de 110 páginas o Ministério Público de Loures acusa 22 arguidos por suspeita da autoria de crimes relacionados com tráfico de droga e de armas ilegais e produção e passagem de moeda falsa. Seis dos acusados são mulheres, com idades compreendidas entre os 25 e os 55.
7 de Abril de 2008 às 00:30
Brito Ventura e Fernando Carvalhal, especialistas em direito criminal, defendem quatro arguidos
Brito Ventura e Fernando Carvalhal, especialistas em direito criminal, defendem quatro arguidos FOTO: Vítor Mota

No julgamento – ainda sem data agendada – o Ministério Público vai usar como trunfos mais de uma dezena de testemunhas, entreasquaisalguns agentes da PSP envolvidos na investigação, dezenas de transcrições de escutas telefónicas interceptadas pela Polícia Judiciária e os autos relativos ao diverso material apreendidoembuscas domiciliárias.

Os factos ocorreram entre Março de 2006 e 28 de Março do ano passado, altura em que a rede de estrutura familiar foi desmantelada pelas autoridades.

Apesar de na acusação ser evidente que quase todos os crimes foram planeados e organizados com rigor e pormenor, nenhum dos 22 arguidos foi acusado pelo procurador de organização criminosa.

Uma investigação levada a cabo por agentes da Esquadra de Investigação Criminal da PSP de Odivelas durante vários meses permitiu descobrir um esquema que uma família usava para ganhar dinheiro e sustentar as contas da casa, apesar de a maior parte dos arguidos garantir que se dedicava à construção civil ou à venda ambulante como modo de subsistência.

Com o negócio do tráfico de droga a correr de vento em poupa, pelo menos quatro indivíduos decidem apostar na contrafacção de moeda. Escolhem as casas de S.R. e de J.R. na Arroja para procederem à impressão de notas de diversos valores.

Depoisdeimprimirem em folhas A4 as reproduções das notas do Banco Central Europeu, os arguidos cortavam-nas em peças individuais e faziam uma estampagem igual à marca de prata original com uma caneta da mesma cor.

As notas falsas eram depois vendidas ao desbarato entre os dois e dez euros cada em troca de avultadas somas em dinheiro. O objectivo era obter lucros elevados com facilidade e rapidez.

No dia 18 de Março, por volta das 17h00, o arguido J.R. guardava no interior da sua casa pré-fabricada, na Arroja, Odivelas, a quantia de 1465 euros, dinheiro que tinha recebido em contrapartida da entrega de reproduções de notas e armas. O dinheiro foi apreendido numa busca domiciliária e o arguido interrogado. Apesar de vários indícios, ficou em liberdade.

J.R. continuou com a mulher, V.R., a dedicar-se à venda de armas defogodecalibre6.35mm, 7.65mm e de 9mm, pistolas automáticas e semiautomáticas e revólveres, originais ou de alarme transformados para efectuar disparos. As respectivas munições também eram vendidas. As armas transformadas eram encomendadas a outro arguido que tinha uma oficina em Almodôvar.

Para passar despercebida, V.R. – uma das quatro arguidas representadas pelos advogados especializados em direito criminal, Fernando Carvalhal e Brito Ventura – escondia as armas dentro de uma mala de ganga. As armas eram vendidas à unidade a preços que variavam entre os cem e os duzentos euros, dependendo do calibre encomendado.

No dia 20 de Setembro de 2006 a operação, que já tinha rendido 580 euros, correu mal. Quando ia para Portimão com J. R. foi interceptada pela PSP, na Estrada de Monchique. Iam vender o produto encomendado a Portimão.

DROGA NEGOCIADA AO TELEFONE

Alguns elementos desta rede com estrutura familiar dedicaram--se durante quase um ano à venda de heroína e cocaína. A droga era adquirida a indivíduos desconhecidos, alterada com borato de sódio e enxofre – de modo a aumentar o lucro – e repartida em doses individuais na residência de um dos arguidos, na Amadora. A troco de dinheiro e outros valores, os arguidos faziam, segundo a transcrição das escutas telefónicas, entregas ao domicílio de alguns compradores e até num café no bairro de Santo Eloy, na Pontinha. Os consumidores também podiam deslocar--se às residências de dois arguidos, sitas na Pontinha e em Odivelas, que serviam como pontos de venda. A droga era encomendada através do telemóvel, sendo utilizada uma linguagem cifrada de modo a despistar as autoridades. As doses eram vendidas a 40 euros cada. Na acusação, é evidente que estes indivíduos actuavam de forma extremamente bem organizada.

ENCOMENDAS CODIFICADAS

Ao telefone, os alegados fabricantes de moeda falsa falavam em código com os compradores na tentativa de despistarem as autoridades, adivinhando já que os telemóveis usados no negócio estavam sob escuta. A linguagem cifrada era conhecida de todos os suspeitos. As reproduções de notas eram designadas por‘t-shirts’, ‘beias’, ‘ferrabins’, ‘sapatos’, ‘toalhas’, ‘bonecas’, ‘ténis’ e ‘guardanapos’. Quando se referiam a ‘pequenas’ a seguir às palavras acima citadas pediam notas com valor entre cinco e vinte euros. ‘Grandes’ já se destinava à encomenda de notas falsas de cinquenta ou cem euros.

Também nas encomendas de produto estupefaciente, os suspeitos falavam em código. A heroína era designada por ‘t-shirts ou calças pretas’ ou da ‘tua/nossa cor’, referindo-se a indivíduos de etnia africana, pode ler-se na acusação do Ministério Público. Quando alguém alertava para o facto de que ‘as camisolas brancas não podiam ser lavadas’ significava que a cocaína estava em estado puro.

PORMENORES

BENS DEVOLVIDOS

V.R. viu serem-lhe apreendidos 1368 relógios em ouro, 805 pilhas e um canivete com 9,5 cm, suspeitos de terem sido obtidos através da venda de armas ilegais. Por não serem necessários como prova, foram-lhe devolvidos semanas depois.

APREENSÃO

O computador de S.R. e a impressora de P.S. foram apreendidos pela Judiciária após uma busca domiciliária. Era com estes elementos que procediamà reprodução de notas de cinco, vinte, cem e duzentos euros.

DOIS EM PREVENTIVA

J.R., de 30 anos, e S.R., de 22 anos, aguardam julgamento em prisão preventiva. Os outros vinte arguidos têm várias medidas de coacção aplicadas, nomeadamente a proibição de realizarem contactos entre si, pessoal ou telefonicamente. Também ficaram submetidos ao termo de identidade e residência.

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