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Correio da Manhã

Portugal
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Família processa hospital

As filhas de Albertina Fernandes Mendes, a mulher de 85 anos que anteontem morreu nas Urgências após quatro horas à espera de médico, acusam o pessoal daquele serviço do Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, de “negligência médica” e vão avançar com um processo-crime que “sirva de exemplo”. Este caso motivou ontem várias reacções públicas, entre as quais a do bastonário em exercício da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, que responsabilizou o Governo e o primeiro-ministro pela morte da idosa, atribuindo-a “à errada política de Saúde do Governo” que leva à sobrecarga das Urgências.
4 de Janeiro de 2008 às 00:00
A doente, que apresentava dificuldades respiratórias, foi conduzida ao hospital por indicação do médico de família e acompanhada pelos Bombeiros de Albergaria, concelho onde residia. Após ter passado pela triagem, que lhe atribuiu uma pulseira amarela (situação urgente, mas não crítica) foi deixada quatro horas numa maca, num corredor das Urgências, antes de lhe ser prestada assistência.
“A minha mãe morreu ali, abandonada, sem que nenhum médico a visse”, desabafa revoltada a filha Isabel Mendes. Seria apenas por intervenção de outros utentes, que estranharam que a senhora tivesse parado de tremer, que o pessoal de enfermagem foi chamado, confirmando-se o pior.
“Não queremos atribuir culpas aos médicos, porque eles nem sequer a viram. Mas de resto, toda a gente se portou mal, desde a triagem, onde nem sequer a auscultaram ou mediram a tensão, até às enfermeiras que não foram capazes de ver que ela estava em agonia”, resume Cristina Tavares, a amiga da família que a acompanhou às Urgências.
A maior amargura desta família é que Albertina tenha morrido sem ter qualquer pessoa a seu lado. “Apesar de ela não estar em condições de falar recusaram a entrada de qualquer acompanhante. Só soubemos do que se passava porque algumas pessoas que lá estavam dentro exigiram que fossemos chamados e nos fosse dita a verdade”, salienta Cristina Tavares.
A directora clínica do hospital, Lurdes Sá, lamentou ontem o sucedido e confirmou ao CM a abertura de um inquérito interno para apuramento das circunstâncias da morte. “A doentinha não foi vista atempadamente porque houve um grande afluxo de doentes nesse dia. Mal nos apercebemos de que estávamos perante um pico de afluência a equipa médica – de 43 clínicos – foi reforçada com mais dois elementos e foram abertas mais 12 camas no serviço de Medicina Interna para obviar o problema. Infelizmente não foi possível evitar este desenvolvimento”, acrescenta a responsável.
Durante a passada quarta-feira, o Hospital de Aveiro recebeu, segundo dados da administração, cerca de 500 doentes, mais uma centena do que o número normal de atendimentos, o que implicou uma espera média de seis horas.
Lurdes Sá recusa fazer uma ligação directa entre o encerramento de alguns serviços de urgência no distrito de Aveiro – e até o fecho dos Serviços de Atendimento Permanente – e a sobrelotação da sua unidade, preferindo atribuir responsabilidades à existência de uma “população envelhecida que carece de muitos cuidados, principalmente em períodos de frio ou calor extremo”. “Temos uma boa equipa, mas isso nem sempre chega”, refere.
HÁ PERIGO DE INFECÇÕES
A sobrelotação que se vem registando com cada vez maior frequência no Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, levou a Comissão de Controlo de Infecções Hospitalares a recomendar a diminuição do número de camas em cada enfermaria e a redução dos doentes que esperam em macas e cadeiras nos corredores das Urgências. Tal como explica a directora clínica, Lurdes Sá, “existe consciência dos riscos e está tudo a ser preparado para, dentro de dez dias, tornar regra a existência de apenas três camas, e não quatro, em cada enfermaria”. A proximidade entre doentes é uma das causas para o surgimento de infecções que por vezes podem atingir situações preocupantes. Um cenário que o Hospital de Aveiro já conhece, após ter visto falecer dois pacientes, no ano passado, por contraírem uma bactéria resistência durante um surto de infecção.
OUTROS CASOS
AVEIRO
Um doente cardíaco de 60 anos que ia a uma consulta no Hospital de Aveiro faleceu há cerca de três semanas após ter subido vários lanços de escadas. Os elevadores estavam avariados.
TAROUCA
Um homem de 44 anos morreu em meados de Dezembro após ter passado pelo Centro de Saúde de Tarouca e pelos hospitais de Lamego e Vila Real, sem lhe serem diagnosticadas complicações respiratórias.
VISEU
Os familiares de uma mulher de 42 anos, que morreu em Agosto, após ter tido quatro vezes alta, acusam o Hospital de S. Teotónio de negligência.
RÉGUA
A Administração Regional de Saúde do Norte garantiu ontem que um paciente com “sinais evidentes de doença urgente” que foi segunda-feira às antigas Urgências de Peso da Régua foi “devidamente analisado”.
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