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Correio da Manhã

Portugal

FAMÍLIA VIVE CRISE DE VALORES

O alerta das mães de Bragança sobre o crescimento da prostituição nesta cidade, as recentes detenções no âmbito do processo Casa Pia e o aumento de denúncias de casos de violência doméstica reflectem uma crise de valores instalada na sociedade?
25 de Maio de 2003 às 00:00
O CM procurou a resposta junto de vários dirigentes de associações ligadas à família e especialistas. Repensar a educação e valorizar a família foram as soluções apontadas.
Teresa Costa Macedo, a primeira a denunciar a existência de uma rede de pedofilia ligada à Casa Pia, entende que estes flagelos sociais reflectem a crise que está instalada na família. A presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF) afirmou que “através de acções e argumentos falaciosos e hipócritas a sociedade ocidental tem vindo a admitir uma série de hábitos e medidas que levaram a uma crise da família de que só as novas gerações conhecerão o preço”.
AMEAÇA À LIBERDADE
“A crise da família que hoje em dia verificamos é pois uma ameaça grave à liberdade da pessoa humana e à sua diginidade enquanto indivíduo e agente social”, acrescentou a antiga secretária de Estado da Família, que em 1982 entregou à PJ um ‘dossier’ com provas sobre uma alegada rede de pedofilia na Casa Pia, instituição que então tutelava.
Interrogada sobre se a forma como tem evoluído a acção judicial no caso Casa Pia, Costa Macedo diz que “revela provas claras de um amadurecimento da democracia”. “É bom recordar que os tribunais são independentes e apenas estão sujeitos à lei. Se tal for assegurado, está a cumprir o Estado de Direito democrático”, sublinha.
Defensora de “um maior envolvimento das famílias com as instituições particulares de solidariedade social, as autarquias e as escolas”, Costa Macedo aponta “o direito de acesso à comunicação social das organizações representativas da família”.
Por sua vez, D. Januário Torgal, Bispo das Forças Armadas e presidente da Comissão das Migrações da Conferência Episcopal, diz que no caso da violência doméstica, “com os benefícios da democracia a questão tem sido debatida como antigamente não acontecia”. “No caso da prostituição, com a exploração de máfias ligadas à emigração ilegal, este sistema esclavagista obteve maior relevância”, refere. Diferente é a sua posição sobre a pedofilia: “há neste momento esperança no Estado de Direito e na Justiça”.
Recusando a presença de uma crise de valores, o sociólogo Jorge de Sá considera positivo o facto de “tudo isto – pedofilia, violência doméstica, prostituição – estar a ser falado”, sublinhando que a “criação de opiniões gera atitudes de reacção e de rejeição dessas práticas”.
Um reforço da informação sobre os flagelos que atingem sociedade é uma das soluções apontadas por Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP). “Quanto mais se falar destas coisas maiores espaços de diálogo serão abertos”, precisou este responsável. Para uma maior preparação dos jovens perante questões como a pedofilia ou a violência doméstica, Albino Almeida defende a introdução da educação sexual nas escolas. A mesma opinião é partilhada por Jorge de Sá: “o conhecimento da sexualidade desde tenra idade irá gerar maior resistência aos pedófilos”.
FAMÍLIAS NUMEROSAS CULPAM DIVÓRCIO POR CRISE DE VALORES
INSTABILIDADE EMOCIONAL
O divórcio é uma das causas apontadas por Fernando Castro, presidente da Associações das Famílias Numerosas, para os flagelos que atingem a sociedade. “Estudos apontam que problemas de violência doméstica e pedofilia têm uma taxa de incidência oito a dez vezes mais elevada em famílias não estruturadas”, disse Fernando Castro.
TOXICODEPENDÊNCIA
O crescimento do divórcio entre os pais é igualmente apontado por Fernando Castro como causa para o agravamento da toxicodependência, sida, insucesso escolar e delinquência entre os jovens. As Famílias Numerosas também entendem que a união de facto não é alternativa ao casamento porque só quatro por cento destas dura mais de dez anos.
EMANCIPAÇÃO FEMININA
O sociólogo Jorge de Sá rejeita que o divórcio provoque um agravar dos flagelos sociais. “O divórcio está sim ligado à emancipação feminina. Com a entrada da mulher no mercado de trabalho deixam de haver casamentos de fachada. Com a autonomia financeira a mulher deixa de se vergar ao senhor todo poderoso no casamento”.
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