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Correio da Manhã

Portugal
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FAMÍLIAS AMARGURADAS

A esperança foi o único sentimento que Leonor Matos e Nita Fernando – mães das duas crianças que desapareceram em Angola e cujos corpos se pensa terem sido agora encontrados – não partilharam durante todo o dia de ontem.
8 de Novembro de 2002 às 00:00
Leonor Matos, mãe de Eduardo Silva, preferiu o silêncio. Uma vizinha confessou que “até saber o resultado dos testes e autópsias” na casa do jovem desaparecido, “há ainda esperança”. Sentimento que há muito perdeu Nita Fernando, mãe de Hugo Viola. Os familiares de Hugo afirmaram ao CM que as notícias provenientes de Angola, dando conta da descoberta de dois corpos do sexo masculino, que se presume serem dos rapazes “foi dolorosa, mas já não um choque”.

Num dos andares de um prédio na Rua Prof. Gomes Teixeira, em Lisboa, onde reside a mãe e avós de Eduardo o ambiente era ontem de grande consternação e sofrimento. À porta do edifício ainda se podiam ver os cartazes onde se pode ler: “Eduardo e Hugo, confiamos no vosso regresso. Deus vos ajude!”. Cartazes também colados junto à escola onde Eduardo estudava, o Colégio Salesiano-Oficinas de São José. “Estamos envolvidos numa dor profunda e grande incerteza”, afirmou ao CM um familiar que pediu o anonimato.

Os dois rapazes, de 14 e 3 anos, respectivamente, desapareceram na sequência de uma caçada na Coutada do Ambriz, em Angola, durante a qual ocorreu um massacre, em 21 de Novembro de 2001, que resultou na morte de quatro adultos, de nacionalidade portuguesa, e no desaparecimento dos dois rapazes.

Ao longo de um ano, todos os apelos e buscas revelaram-se infrutíferos. Agora, depois de sucessivas informações contraditórias, dois corpos foram encontrados a cerca de 300 metros do local onde se deu o massacre a tiro.

Os dois corpos foram ontem transportados de helicóptero para o Hospital Militar de Luanda. A acompanhar o resgate, esteve o cônsul-geral de Portugal em Luanda, Pedro Sousa Abreu, juntamente com médicos legistas e elementos da Polícia Judiciária angolana. Pedro Sousa Abreu considerou existirem indícios de que se trata efectivamente dos dois rapazes, declarando à Lusa “que são dois corpos do sexo masculino, um pequeno e outro jovem, que se encontravam a cerca de 300 metros do que resta do jipe da família Viola”.

Depois de removidos para o Hospital Militar de Luanda, os dois corpos serão hoje autopsiados. Segundo adiantou ao CM fonte da Embaixada de Portugal em Luanda, se persistirem dúvidas quanto à identidade dos corpos encontrados, serão recolhidas amostras para análise de ADN, a realizar em Lisboa, e só depois de definitivamente identificados (a confirmar-se serem os dois rapazes, o que não será possível antes de uma semana) é que os corpos podem ser trasladados para Portugal, a pedido dos respectivos familiares. Nita Fernando já terá manifestado a vontade de que o seu filho seja sepultado junto do respectivo pai, em Luanda. – *
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