Faz 71 anos em Novembro mas continua activo. Adelino Rodrigues é o alfaiate que desde 1971 faz as fardas para os agentes e comandantes da Polícia Municipal (PM) de Lisboa. Ainda há duas semanas teve de adaptar as vestimentas dos 150 elementos que vieram da PSP para a PM. Esteve para abandonar a “casa”, como a apelida, pelo menos duas vezes, mas o “amor à camisola” e à gente que lhe fala ao coração, como diz, fez com que fosse ficando. Já lá vão 36 anos de histórias para contar.
Quando chegou à PM já tinha feito fardas para chefes, graduados e comandantes da PSP, onde foi agente da Brigada de Minas e Armadilhas. O convite para ser o alfaiate da Polícia Municipal chegou já Adelino tinha trespassado a sua alfaiataria na Rua das Pretas, Lisboa, e veio alterar o rumo da sua vida. Finalmente iria poder dedicar-se de corpo e alma à profissão que o conquistou. “Aceitei o convite do comandante Saldanha porque podia fazer o que realmente gostava, e para fugir aos explosivos”, conta ao Correio da Manhã.
Anos antes, em 1965, Adelino viveu uma experiência assustadora e que o fez pensar como era perigoso trabalhar naquela brigada da PSP. O alfaiate estava nesse dia com uns colegas da PSP a fazer uma instrução com material de guerra. O objectivo era fazer uma bomba com uma bateria e com detonadores eléctricos. “Quando se fazia a exemplificação, aquilo explodiu. Um colega foi projectado e eu atirado para um canto. Fiquei com os estilhaços no braço esquerdo para o resto da vida”, recorda Adelino.
A adaptação não foi fácil apesar de adorar fazer fardas e de vestir agentes e comandantes com a maior perfeição e rigor. Mas era um ofício solidário e Adelino estava habituado a trabalhar com muitas pessoas. De todos os que por ali passaram só tem elogios a fazer e agradece por o terem ajudado na fase difícil que passou com a morte dos pais. Mas se há homem que não esquece é o “comandante Luz de Almeida que chegou à PM em 1973 e mudou a imagem e auto-estima” da instituição. “Nunca mais me esqueço dele. E de que, quando cheguei à PM, eram apenas 150 homens, hoje já passam dos 500”, lembra.
Os nervos eram muitos e mais ainda no dia em que o comandante Luz Almeida lhe pediu que fizesse uma farda de Pai Natal para a festa da PM. Adelino nunca tinha feito nada do género, mas não o deixou ficar mal. “Ele era muito exigente, bastava ter um centímetro a mais ou a menos e ele notava logo”, conta ao CM. Foi fazendo fardas, aplicando fitas em chapéus até ter um AVC que lhe afectou a visão. Hoje continua a ser o alfaiate de serviço, mas em regime de part-time.
DIFICULDADES NUNCA FORAM OBSTÁCULO
A família de Adelino vivia com bastantes dificuldades económicas. E foi isso que o fez ter vontade de singrar na vida. “A minha vida foi sempre difícil. Para completar a 4.ª classe fazia sete quilómetros a pé todos os dias numa estrada de altos e baixos”, recorda Adelino. Aos 13 anos, os estudos deram lugar aos trabalhos pesados. Para ajudar a aumentar os rendimentos da família, trabalhava de sol a sol numa incineradora onde, com mais dois miúdos, carregava sacos de cimento com 150 quilos. Mais tarde, a viver em Benavente, ia às compras descalço a Vila Franca de Xira. Aos tios, que acabaram por falecer na sua casa, deve-lhes tudo. “Foram os meus pais e eles que me arranjaram o meu primeiro trabalho como alfaiate”, conta. Os pais morreram já ele estava na PM, foi mais um abanão que a vida lhe deu. No final dos anos 90, a saúde pregou-lhe uma partida. Sofreu um AVC que lhe afectou a visão. Mas nem isso o fez desistir de ser o alfaiate da PM.
ENSINO ESPANHOL
Aprendeu toda a arte da alfaiataria com a experiência que adquiriu nos vários sítios por onde passou ao longo da carreira de alfaiate. Mas foi graças a uma revista espanhola datada de 1969, que ainda hoje guarda religiosamente, que aprendeu a fazer cortes e provas e viu como podia expandir os seus conhecimentos.
DETESTA FAZER SAIAS
Calças, fraques, casacos com pinças e até smokings. Adelino fez de tudo mas nunca gostou de fazer saias. “Ainda cheguei a fazer algumas mas sempre achei que isso é trabalho para as costureiras”, conta ao CM.
O PRIMEIRO NA FAMÍLIA
Adelino nunca pensou ser alfaiate, até porque na família ninguém trabalhava na área. Cansado de fazer trabalho pesado em incineradoras e nas ceifas do campo de Benavente mudou de rumo e arriscou iniciar carreira como alfaiate.
FEZ A PRÓPRIA FARDA
Era agente da PSP quando pediu autorização ao comandante para fazer a sua própria farda. “Fi-la e apresentei-me. Chefes e comandantes elogiaram-me. Comecei a ter clientes”, conta.
Nasceu em Pedrógão Grande, terra que o orgulha, e foi lá que começou a ter os primeiros clientes como alfaiate. Casado com Alberta Rosa, há mais de 30 anos, Adelino é pai de um rapaz e de uma rapariga. Aos 16 anos estreou-se como alfaiate, pouco depois já trabalhava numa casa lisboeta onde ganhava 28 escudos por mês. Foi agente da PSP na Brigada de Minas e Armadilhas nos anos 60, enquanto geria uma alfaiataria ao mesmo tempo.
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