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Correio da Manhã

Portugal
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FÉRIAS AJUDAM CAMIONISTAS

A BT-GNR continua a detectar irregularidades praticadas por motoristas de pesados, que, baseando-se em diversas artimanhas, sobretudo na falsificação de tacógrafos, alteram o número de horas e dias de trabalho e a velocidade a que viajam.
12 de Maio de 2003 às 00:00
Segundo apurou o CM, uma das ilegalidades agora mais usadas prende-se com o recurso a declarações de férias falsas.
Camionistas possuem, durante as viagens, uma declaração de férias, passada pela entidade patronal, dando conta que não estiveram a trabalhar nos dias anteriores. A maioria destas declarações, segundo um conhecedor do processo, é falsa e serve, sobretudo, para esconder das autoridades fiscalizadoras - BT-GNR e Inspecção-Geral do Trabalho - os discos, muitas vezes comprometedores, pois demonstram que os motoristas estiveram sempre ao serviço, desrespeitando as obrigações de descanso.
O nosso jornal teve acesso a documentos que demonstram que há declarações, no mínimo, muito estranhas. Uma dá conta de que um camionista esteve nove vezes de férias no período de dois meses, sendo que algumas estão datadas com apenas três dias de diferença.
Outro documento relativo à declaração de um período de férias foi passado por uma empresa portuguesa a um camionista ucraniano. Em anexo estão dois discos que comprovam que o camionista trabalhou nos dias marcados como estando de férias.
As empresas em causa recusaram-se a comentar estas suspeitas, mas alguns camionistas confirmaram que, "além da falsificação de tacógrafos", agora "estão na moda as declarações de férias".
"A culpa é dos patrões que exploram os camionistas até onde podem. Agora passam-nos declarações de férias falsas para mostrarmos às autoridades policiais”, indicou um dos profissionais.
“Há camionistas que durante um mês têm quatro ou cinco períodos de férias. É uma vergonha, mas não podemos fazer nada, porque podemos ser despedidos", concluiu.
TODOS SABEM MAS NADA PODEM FAZER
O tenente José Machado, comandante da BT-GNR de Viseu, confirma a existência das declarações, salientando que as autoridades não conseguem apurar a sua veracidade, "porque têm o carimbo da entidade patronal".
José Machado adiantou que a BT-GNR de Viseu tem detectado muitos casos de falsificação da notação técnica. "Só no mês de Abril e no distrito de Viseu foram levantados 415 autuações a veículos pesados, como consequência de várias irregularidades".
Vítor Pereira, dirigente da Federação dos Sindicatos dos Transportes Rodoviários e Urbanos, também conhece esta fraude.
"É uma das muitas ilegalidades com que os camionistas têm de ser indirectamente coniventes. É um papel que permite enganar as autoridades e omitir uma série de irregularidades. É, também, mais um facto que demonstra a precaridade do trabalho do camionista", afirma.
O sindicalista adiantou que, para denunciar esta e outras ilegalidades, a estrutura que representa solicitou uma reunião ao ministro do Trabalho.
"Até hoje, o ministro ainda não nos quis receber. Logo, posso dizer que o Governo é, também, conivente com as irregularidades existentes no sector e que poderão pôr em causa a segurança das pessoas nas estradas", concluiu Vítor Pereira.
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