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Correio da Manhã

Portugal
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Ferido espera seis horas por socorro

Um homem colhido por um automóvel, quando circulava de bicicleta na estrada entre São Teotónio e Vila Nova de Mil Fontes, no Alentejo, esperou seis horas para chegar a um hospital adequado. Não resistiu. Morreu, anteontem, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
15 de Janeiro de 2007 às 00:00
Cerca das 07h30 de segunda-feira, dia 9, António Oliveira, de 54 anos, seguia numa bicicleta, na Estrada Nacional 393, nos arredores de S. Teotónio, concelho de Odemira, e foi abalroado por um automóvel.
Ao local do acidente, e por decisão dos serviços de triagem do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), deslocou-se uma simples equipa dos Bombeiros Voluntários de Odemira – que transportou o ferido, politraumatizado, para o Serviço de Apoio Permanente (SAP) do Centro de Saúde de Odemira. O ferido chegou aqui pelas 08h20, quase uma hora depois do acidente.
António Oliveira estava em estado grave: tinha fractura exposta do braço e traumatismo crânio-encefálico. Os médicos do SAP, de clínica geral, tentaram durante uma hora estabilizar o ferido – até que decidiram transferi-lo, numa ambulância dos Bombeiros de Odemira, para o serviço de neurocirurgia, em Santa Maria, em Lisboa.
Já dentro da ambulância, segundo fonte dos bombeiros, o ferido piorou. Os médicos de Odemira pouco podiam fazer – e decidiram chamar o único Veículo Médico de Emergência e Reanimação (VMER) em todo o distrito, estacionado no Hospital de Beja, a 100 quilómetros.
O carro, com um médico especialista em emergência, disparou para o Centro de Saúde de Odemira, onde chegou uma hora depois. Depois da avaliação do estado de António Oliveira e de nova tentativa de estabilização, o que demorou mais uma hora, foi decidido chamar o helicóptero, pousado em Lisboa, para transportar o ferido para o Hospital de Santa Maria.
O helicóptero foi chamado pelas 11h30 – e cerca de uma hora depois aterrava em Odemira. Levantou voo pelas 13h10, de regresso à capital, numa viagem difícil, a baixa altitude e à velocidade mínima, dado o estado do ferido.
António Camilo, presidente do Município de Odemira, revoltado com o abandono a que sente o seu concelho em termos de socorro, envia hoje um oficio ao ministro da Saúde a pedir uma audiência para analisar a situação.
UM CARRO PARA TODO O DISTRITO
A área do distrito de Beja – 10 225 quilómetros quadrados – é cerca de onze por cento do País, o que o torna o maior distrito de Portugal. Para toda esta área apenas está disponível uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), estacionada em Beja, a mais de 100 quilómetros do limite mais longínquo do distrito, no caso, no concelho de Odemira. Até ao ano passado, segundo o presidente da Câmara de Odemira, houve outra VMER, estacionada em Ourique, mas a rentabilização de meios feita pelos responsáveis do INEM levou à sua desactivação. A Auto-Estrada do Sul, uma das mais movimentadas do País, atravessa o distrito de Beja.
INEM ENTENDE QUE ACÇÕES FORAM CERTAS
Nélson Pereira, director dos serviços médicos do INEM, após averiguar o ocorrido, disse à estação de rádio TSF que a actuação dos profissionais do INEM, “em três momentos diferentes”, decorreu “dentro da normalidade” e no âmbito do que os meios disponíveis permitiam.
O responsável admitiu ainda que a situação de uma viatura VMER para todo o distrito de Beja possa mudar num futuro próximo.
Já o ministro da Saúde, Correia de Campos, interrogado pela mesma estação de rádio, afirmou que irá “necessariamente actuar procurando conhecer o que se passou” e perceber “se porventura alguma coisa de errado funcionou”.
A estrada apresenta bom piso e muitas rectas, mas faltam bermas. António Oliveira, antigo pedreiro e que nos últimos tempos não tinha ocupação profissional, seguia de bicicleta, desde a pequena povoação da Fataça em direcção a São Teotónio, sede da freguesia, quando foi atingido, no ombro esquerdo e na nuca, pelo espelho exterior de uma carrinha de caixa aberta. O seu único irmão só foi informado do acidente quando António Oliveira já estava no SAP do Centro de Saúde de Odemira.
Na mesma estrada veio a falecer, dois dias depois, uma outra pessoa, Alexandre Guerreiro, septuagenário, vítima de atropelamento.
CRONOLOGIA
07h28 - António José Guerreiro Oliveira é atropelado por uma viatura, quando seguia de bicicleta na EN393, a poucos quilómetros de Odemira.
08h20- A vítima do acidente, em estado muito grave, politraumatizado, com lesões crânio-encefálicas, dá entrada no Centro de Saúde de Odemira.
10h30 - Chega a Odemira a VMER do Hospital Distrital de Beja, depois de uma viagem de cerca de uma hora em que percorreu os 100 quilómetros entre as duas povoações. Avaliação do ferido.
11h30 - Pedido o helicóptero ao serviço do INEM, em Lisboa, que chega a Odemira pelas 12h30.
13h10 - O helicóptero, com o ferido, levantou voo em direcção ao Hospital de Santa Maria, Lisboa. António Oliveira morre uma semana depois.
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