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Correio da Manhã

Portugal
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FERNANDO NEGRÃO: PROGRAMAS DE SUBSTITUIÇÃO SÃO UM INSTRUMENTO ÚTIL

O responsável pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência garante que o investimento e reinserção está assegurado, e que não houve cortes nos gastos.
23 de Outubro de 2003 às 00:00
Fernando Negrão
Fernando Negrão FOTO: d.r.
Correio da Manhã – Este é o primeiro relatório do OEDT que é divulgado quando já lhe podem ser pedidas responsabilidades nesta área. Que comentário lhe merece?
Fernando Negrão – Em primeiro lugar, ao contrário do que é voz corrente, Portugal tem uma prevalência de consumos inferiores à média europeia.
– Em compensação tem uma elevada taxa de consumidores problemáticos e infecções por VIH/Sida entre os toxicodependentes.
– É verdade. Mas, o próprio relatório diz que o número de novos casos de sida tem vindo a diminuir entre os toxicodependentes. E é precisamente por causa dos consumidores problemáticos que mantemos o esforço nas áreas do tratamento e reinserção.
– Não houve um corte nos gastos?
– Não. O investimento no tratamento e reinserção está assegurado.
– Não lhe parece estranho que um país como a Holanda, onde o acesso à canábis é seguramente o mais fácil de toda a União Europeia, seja precisamente aquele com a menor taxa de consumidores problemáticos?
– Em Portugal, o salto da canábis para outras drogas é muito mais rápido do que na Holanda.
– Até que medida a separação de mercados por eles adoptada contribui para que não aconteça esse “salto”?
– Não creio que separar os mercados [legalizar a canábis] seja adequado para Portugal. Acho que a diferença está na educação e formação. Há muito tempo (décadas) que os holandeses sabem distinguir as diferentes drogas e graus de perigosidade.
– Para a diminuição de novas infecções por VIH muito contribuiu o investimento nas políticas de redução de danos.
– E nós vamos continuar a apostar nisso. temos um programa de troca de seringas que é o melhor da Europa, e se calhar do Mundo, dada a participação das farmácias.
– Não há um desinvestimento nesse sentido?
– Pelo contrário. Até vamos alargar o âmbito do protocolo com a Associação Nacional de Farmácias.
– Alargar como?
– Envolver mais farmácias na troca de seringas e envolver mais farmácias nos programas de substituição.
– Quando tomou posse não se mostrava tão favorável aos programas de substituição.
– O que eu sempre disse é que era preciso avaliar. Em determinadas condições são úteis e insubstituíveis.
– Tais como?
– Por exemplo, em baixo limiar sem obrigatoriedade de parar com consumos, quando há um indivíduo completamente desestruturado. A metadona permite-lhe o equilíbrio necessário para que ele retome os mínimos actos sociais. Em alto limiar, imagine um estudante universitário que quer deixar de consumir, não quer parar o curso e não quer envolver a família. Quem diz um universitário, diz um profissional seja ele qual for. Agora, os programas e substituição têm de ser vistos como um meio ou instrumento e não um fim em si.
– A que se deve essa mudança de atitude?
– A um melhor conhecimento da realidade.
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