Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
4

Filhas matam pai tirano

O primeiro golpe foi dado pela filha mais velha, com a picareta a acertar em cheio na nuca de Manuel, adormecido no sofá, drogado com soporíferos. A filha mais nova, que segurava uma colher de pedreiro, deu o segundo golpe. A mulher tinha uma faca de cozinha. O crânio não resistiu às agressões. A artéria aorta foi cortada. Um som mais forte ecoou na sala da casa e a mulher e as duas raparigas perceberam que o homem estava morto.
19 de Agosto de 2005 às 00:00
A mulher e as duas filhas usaram as ferramentas de trabalho do emigrante português para o matarem quando estava a ver televisão
A mulher e as duas filhas usaram as ferramentas de trabalho do emigrante português para o matarem quando estava a ver televisão FOTO: Ricardo Cabral
‘Deus’, como chamavam ao emigrante português, estava morto e os anos de “terror e medo”, numa pequena aldeia do centro de França, tinham chegado ao fim. Era domingo.
De acordo com a edição de ontem do jornal francês ‘Libération’, as três mulheres terão passado todo o dia de domingo, 14 de Agosto, a preparar a morte de Manuel Fonte-Rebelo. Decidiram drogá-lo e escolheram as armas: uma faca de cozinha, uma picareta e um colher de pedreiro – as duas últimas pertenciam ao emigrante português.
De acordo com os advogados das três mulheres, o pedreiro português era “um tirano, que as privava de tudo”. “Proibia-as de falar com os vizinhos, de sair à rua sozinhas. Agredia-as”, conta o advogado de Francine, a mulher. O advogado de Cinthia – a rapariga de 17 anos, filha de Francine e enteada do português – conta que a sua cliente era violada desde há um ano. Melina, de 15 anos, filha do casal, era forçada a massajar o pai.
Francine, Cinthia e Melina, diz um dos advogados ao ‘Libération’, decidiram que o terror não podia continuar. “Elas queriam claramente acabar com o clima de terror que, alegam, ele criava no seio da família. Foi uma ideia das três e as três participaram na acção”, diz a procuradora de Valence, principal cidade da região administrativa de Drôme.
A morte ficou marcada para a hora de jantar de domingo, dia 14 de Agosto. Os três filhos mais novos do casal – duas raparigas de 13 anos e dez anos e um rapaz de sete anos – estavam a dormir.
Os soporíferos estavam prontos. A mulher e as filhas colocaram-nos no vinho, mas Manuel Fonte-Rebelo estranhou-lhe o gosto e já não bebeu. Elas insistiram e misturaram os medicamentos na sopa. Desta vez resultou. O emigrante português acabou de jantar e, como sempre, sentou-se no sofá de olhos postos na televisão.
As mulheres esperaram dentro de casa. Manuel Fonte-Rebelo tinha colocado cada um dos tijolos, acertado cada um dos detalhes da moradia em Saint-Barthémely-de-Vals. A família mudara-se um ano antes, com as paredes por rebocar.
Quando Manuel fechou os olhos no sofá, com a televisão ligada, Cinthia pegou na picareta e deu o primeiro golpe. Melina usou a colher de pedreiro. Francine a faca de cozinha. Quando aquele som ecoou na sala, as três mulheres perceberam que Manuel estava morto. A seguir, chamaram a polícia. Eram 22h00.
VIOLÊNCIA E ABUSOS
Cinthia foi obrigada pelo pai a deixar a escola quando tinha 16 anos. “Ele queria que ela estivesse sempre em casa”, conta o advogado da rapariga de 17 anos. “Há quatro anos, começou a molestá-la”, continua o advogado, “e desde há cerca de um ano que a violava.” Abusos de que Francine, a mãe, só tomou conhecimento em Julho. Cinthia recebeu uma mensagem de telemóvel de um rapaz e o pai agrediu-a. A rapariga não aguentou mais e contou à irmã o que estava a acontecer. Melina, por seu turno, contou à mãe. Mas Melina também era vítima do pai, que a obrigava a massajá-lo, todas as noites, quando se encontrava no sofá a ver televisão. De acordo com fontes judiciais ouvidas pelo ‘Libération’, estas situações, e as agressões físicas e verbais a que eram sujeitas as mulheres, terão contribuído, segundo alegam as três, para que combinassem e executassem a morte de Manuel Fonte-Rebelo, um pedreiro de 46 anos.
'PRISÃO É MELHOR DO QUE CASA'
Sem denotarem qualquer arrependimento e com uma “calma impressionante”. Foi assim que, de acordo com os advogados, a mulher e as duas filhas de Manuel Fonte-Rebelo contaram à polícia como tinham assassinado o pedreiro português. “A prisão não será tão má como o que vivíamos em casa”, disse Cinthia, a rapariga mais velha. Francine, a mulher do português, apenas lamenta pelo futuro dos filhos: as duas mais velhas, que estão presas como ela, e os três mais novos, entregues a instituições de solidariedade. “É terrível, mas tenho a impressão de que quando sair da prisão, ele estará lá à minha espera”, admitiu Francine.
PASSADO E PRESENTE
QUEIXAS
Francine diz que quando soube das violações sofridas por Cinthia tentou apresentar queixa junto das autoridades, mas que nada foi feito. Um responsável ter-lhe-á dito que teria de ser a própria rapariga a apresentar a queixa. A advogada diz que a jovem tinha medo.
CADASTRO
Um familiar de Francine disse ao ‘Libération’ que o emigrante português não era uma pessoa de trato fácil e que já tinha estado preso nove vezes por se envolver em desordens ou desacatos e uma outra, a última, por disparar sobre um rapaz na cidade de Lyon.
PRESAS
Francine, Cinthia e Melina estão presas desde a noite da morte de Manuel Rebelo-Fonte. Os advogados das três vão tentar justificar o crime com o clima de terror que o emigrante português criava em casa, incluindo agressões, física e verbais, e casos de abuso sexual
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)