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Correio da Manhã

Portugal
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FILHO ASSASSINA PAI

As lágrimas de Fernanda Almeida soltam-se pelo rosto, num duplo sofrimento. Chora pelo marido assassinado, chora pelo filho que empunhava a faca. Pelo meio, a esquizofrenia do seu filho detido agora pela GNR de Sines, anos de ameaças e de medos, a impotência perante um internamento compulsivo nunca conseguido.
12 de Maio de 2003 às 00:00
E, no entanto, era quase uma tragédia anunciada. Junto dos vizinhos, João, de 28 anos, era conhecido em Sines pelo bom trato, mas toda a gente sabia que o ambiente em casa não era o melhor. Joaquim Mascarenhas, vizinho, lembra-se de “às vezes ouvir barulho, discussões. Ele connosco não discutia, mas com os pais era outra coisa”.
Fernanda Almeida recorda que os problemas começaram quando o “João tinha 17 anos. Um homem mais velho deu-lhe uma grande tareia e ele a partir daí viveu com a fixação da vingança”. A explicação foi-lhe dada por um psiquiatra que depois acompanhou o filho durante um período. Só que essa insatisfação virou-se contra o próprio seio familiar – a mãe, de 57 anos, o pai, João Almeida, de 54, e o irmão, o Pedro, de 22. Manuela Cordeira, que mora em Grândola, vivia de muito perto o drama da irmã: “Falávamos muitas vezes e era sempre sobre a doença do João. Eles não sabiam já o que fazer. O meu cunhado era pescador e quando ele ia para o mar, a minha irmã chegava a fechar-se no quarto, com medo das reacções agressivas do filho”.
A doença levava João a considerar-se o centro e a origem de tudo o que era bom no seio da família. “Se tínhamos a casa era porque ele tinha conseguido, o barco era também dele, era tudo dele e se o contrariávamos ameaçava-nos com a morte”, recorda Fernanda, num discurso interrompido pelas lágrimas.
No Verão do ano passado, João chegou a envolver-se num quase confronto com o irmão. Nessa altura, “através do Tribunal e da GNR conseguimos levá-lo a uma junta médica em Setúbal para o conseguir internar compulsivamente. Mas foi em segredo e ele nunca soube que tínhamos sido nós, eu e o pai, a prepararmos as coisas”. No entanto, a junta não fez cumprir o internamento e João voltou a casa: “Queriam-me internar, vejam lá. Eu estou bom”. Mas não estava e as reacções de ameaças continuaram – até ontem. A família, os quatro, almoçava e mais uma vez levantou-se a discussão, uma de entre muitas. O pai deixou a mesa da cozinha para a sala, o filho João seguiu-o. Fernanda voltou a vê-los minutos depois, o pai agarrando o peito e dizendo “ele esfaqueou-me. Ainda lhe pus a mão no peito e vi o sangue”. O pescador caiu, já moribundo, de pé estava o filho, o João, de olhos esbugalhados e a faca ainda na mão. O jovem é hoje presente a tribunal.
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