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Correio da Manhã

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FIZ TUDO O QUE PUDE PELA MINHA JOANINHA

É das pessoas que melhor conheceu Joana. Que melhor a compreendeu. Foi também das poucas que a tentou ajudar. A primeira professora da menina da Figueira ainda sente um nó na garganta quando fala da sua “Joaninha”. “Fiz tudo o que pude por ela”, disse ao Correio da Manhã com palavras embargadas de emoção.
30 de Setembro de 2004 às 00:00
Foi ela quem endereçou ao comandante da Guarda Nacional Republicana (GNR) de Lagos um “pedido de localização” de Joana. Foi ela também quem antes tinha avisado a Segurança Social que ela estava doente “e precisava de alguém que a acompanhasse”. Joana tinha uma pneumonia e ninguém para cuidar dela. “Se a mãe nem lhe dava de comer muito menos antibióticos”, acrescenta a professora. Na altura a Comissão de Protecção de Menores da Lagoa foi colocada a par do assunto. Mas tal como a sua congénere de Portimão também não considerou que Joana era uma criança de risco.
Apesar disto o tempo passado na escola de Alporchinhos, em Porches, concelho da Lagoa, foi talvez dos mais felizes na vida da Joana. “Ela adorava cá estar. A escola era um mundo para ela”, recorda a professora. Nada mais natural uma vez que ela vivia numa barraca em ruínas, abandonada por tudo e por todos. Nada mais natural uma vez que, ao menos, a escola tem tecto, e um mundo de afectos. “Ela às vezes era uma menina triste porque queria uma casa. Tinha ânsia por uma casa. Só fazia desenhos de casas”, sublinha. Nesta altura Joana vivia em Vale do Olival pelo que, todos os dias, tinha de fazer a pé os cerca de dois quilómetros que a separam da escola. “Quando chovia ou fazia mau tempo ela não vinha”, reconhece a professora.
Mas foi no segundo ano que as faltas começaram a ser mais frequentes. Foi pouco depois de a mãe ter desaparecido sem deixar rasto. “A mãe ausentou-se, não sei para onde, e deixou-a em casa de uma vizinha. Mas durante aquele tempo a Joana ainda vinha à escola”, sublinha. E acrescenta: “ Uma assistente social chegou mesmo a ir ver o que se estava a passar”. Entretanto Leonor Cipriano regressou ao seu homem, e Joana deixou de frequentar a escola. Foi então que a professora enviou o “pedido de localização” ao comandante da GNR. Dias depois recebeu a seguinte resposta. “Disseram-me que a mãe dela prometeu vir à escola tratar da transferência da menina”. E assim foi.
A professora não acredita que tenha sido a mãe a matar a pequena Joana. “Penso mesmo que ela nunca a bateu”, confessa. Mas recusa-se a pôr as mãos no fogo pelos irmãos de Leonor. Dito isto realça aquele que é apontado como um dos principais traços da personalidade de Leonor – a negligência para com os filhos. “Era a Joana quem se virava na questão da comida e da roupa”, afirma..
Agora a professora da escola primária de Alporchinhos prefere recordar a menina meiga e dócil. A sua “Joaninha” como ela lhe chamava. A menina que nunca se metia em brigas e adorava brincar com bonecas. A menina que gostava da escola porque a escola foi o melhor que o Mundo lhe ofereceu.
Mesmo assim, a Joana continua todos os dias entrar-lhe pela porta da escola. Vem pelas mãos dos seus antigos colegas que em casa consomem a overdose de notícias sobre este caso. “Eles vêem a sua fotografia na televisão e depois vêm para a escola fazer perguntas”, diz a professora. Que perguntas? “ Do género, onde está a Joana? O que aconteceu à Joana”, responde a professora. E acrescenta: “Sabe ela era uma querida por todos”.
Na escola primária de Alporchinhos ainda ninguém esqueceu a pequena Joana. Mas a professora tudo faz para desviar a atenção das crianças. Quanto mais não seja porque um irmão da Joana ainda frequenta aquela escola. Mas também porque receia que os seus antigos colegas fiquem marcados para sempre. “ Eu deveria ter aqui um psicólogo para me ajudar”, desabafa. Só que ainda ninguém se lembrou disso.
APONTAMENTOS
CORPO
As buscas para encontrar o corpo da pequena Joana estão a ser desenvolvidas, desde há dois dias, de formas menos visíveis. De acordo com uma fonte contactada pelo CM, a PJ terá estado ontem no Aterro Sanitário do Barlavento, situado no concelho de Portimão, de forma a inspeccionar o lixo proveniente da aldeia da Figueira. Ganha assim força a possibilidade de o corpo da menina ter sido colocado num contentor de lixo.
TRISTEZA
A família do padrasto de Joana garante que a menina “estava muito triste na tarde do dia do seu desaparecimento”. Segundo Sara Silva, irmã de Leandro, “era o dia de anos de uma sobrinha minha, mas, apesar de ser dia de festa, ela mostrou-se distante. Perguntei-lhe o que tinha e se queria ir para casa. Respondeu que não. Entretanto, veio a mãe e disse que “ela ia para casa, pois estava lá o tio e iam ao Festival do Berbigão”.
MANCHAS
Uma das questões que se coloca em relação a este caso é a de saber como foi possível à PJ chegar à conclusão de que houve um crime. Pois bem, para além do testemunho dos alegados implicados, técnicos do laboratório de polícia científica descobriram vestígios de manchas de sangue na casa, vindo a verificar, através do exame de ADN, que pertencia a Joana. Também foram descobertos vestígios de sangue numa esfregona.
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