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Correio da Manhã

Portugal
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FOGO CRIMINOSO NA SERTÃ

O incêndio que deflagrou no sábado na maior mancha de pinheiro bravo contínuo da Europa, no concelho da Sertã, ainda continuava activo na noite de ontem e a mobilizar quase meio milhar de homens. Os bombeiros não têm dúvidas ao considerar que este fogo, o de maiores dimensões deste ano, teve "origem criminosa" porque eclodiu “junto a uma estrada em cinco zonas diferentes”.
21 de Julho de 2003 às 00:00
A primeira frente de fogo deflagrou às 14h15 de sábado, próximo da aldeia de Marmeleiro, na Sertã, mas no espaço de poucos minutos eclodiram outros focos nas proximidades daquele local. As chamas alastraram mais tarde para zonas de floresta dos concelhos de Vila de Rei e Mação.
Depois de ter atingido grandes proporções durante a madrugada, o incêndio chegou a estar circunscrito, às 08h00 de ontem, mas ao meio-dia, muito por culpa do vento forte, voltou a reacender-se em Ribeira da Isna e Relva, ambas no concelho de Vila de Rei. Este facto obrigou à mobilização de quase quatro centenas de bombeiros de várias corporações da zona Centro e Sul do país.
A juntar ao vento, às elevadas temperaturas e ao facto de se tratar de floresta velha e, por isso, facilmente inflamável, os bombeiros ainda tiveram como “grandes adversários” os dificeis acessos e a falta de água.
O coordenador distrital do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil de Castelo Branco, Rui Esteves, frisa que este é o maior incêndio do ano. Ao mesmo tempo, sublinha não ter dúvidas de que se trata de fogo criminoso.
"Há pessoas que dizem ter visto aviões a lançar o fogo, mas os únicos que passaram por aqui foi para combater as chamas. No entanto, não tenho dúvidas de que se tratou de fogo posto porque eclodiu em cinco zonas diferentes, mas muito próximas, e junto a uma estrada", salientou.
A governadora civil de Castelo Branco, Maria Costa, subscreve estas afirmações e garante que "se houver testemunhas de que o fogo foi posto, a situação vai ser averiguada e os culpados serão punidos".
Para além da considerável área de floresta ardida, este incêndio colocou em perigo várias aldeias da Zona do Pinhal, tendo mesmo destruído quatro habitações. As aldeias de Marmeleiro (Sertã), Várzea, Relva, Vale da Urra, Ribeira da Isna (Vila de Rei) e Cardigos (Mação), estiveram ameaçadas pelas chamas.
Refira-se que até o dia 6 deste mês já arderam 4658 hectares, o dobro em relação a igual período de 2002.
QUATRO CASAS DESTRUÍDAS NA LOCALIDADE DE VÁRZEAS
A noite de sábado e madrugada de ontem foram passadas em claro por centenas de pessoas residentes nas aldeias dispersas pelas várias serras onde deflagrou o incêndio, que se sentiram impotentes por verem as chamas a devorar os seus haveres, sem terem meios e capacidade para as defrontar. Na localidade de Várzeas valeu a persistência da população, os bombeiros e os agentes da GNR. Contudo, não foi o suficiente para evitar que as labaredas devorassem quatro habitações, uma delas com “um recheio valioso avaliado em milhares de euros” e outra que deixou desalojada a sua proprietária, uma idosa que entrou em pânico e que foi levada para casa do filho.
Maria João estava naquela aldeia a passar o fim-de-semana em casa de familiares. A inquietação era cada vez maior, pois o fogo chegou-lhe ao quintal: "A nossa sorte é que os bombeiros chegaram a tempo de evitar que as chamas também chegassem a nossa casa”.
Por sua vez, Clementina Mateus, de 77 anos, não largou a mangueira por um instante, lutando desesperadamente pela protecção de sua casa: "Nunca pensei que isto me acontecesse".
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