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Correio da Manhã

Portugal
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FOGO EM BARRACA TIRA VIDA A IDOSA

Uma mulher de 73 anos, residente em Fazendas de Almeirim, morreu carbonizada, vítima de um incêndio que destruíu a barraca de madeira onde vivia. O fogo, ocorrido anteontem à noite, terá sido provocado por um candeeiro a petróleo.
6 de Janeiro de 2003 às 00:00
Foi um fim trágico para Maria Rosa Leocádia, que sempre revelou tendência para o isolamento e chegou a comprar um lote de terreno no cemitério local, onde colocou uma placa em sua memória.

Da pequena barraca que servia de habitação à idosa há mais de dez anos só restam destroços. Construída num quintal, ficou reduzida a escombros, depois de um incêndio detectado pelos vizinhos por volta das 22h45 de sábado.

Os Bombeiros Voluntários de Almeirim mobilizaram 23 elementos e seis viaturas para combater as chamas, mas o facto de a casa ser em madeira e ter no seu interior muita roupa e plásticos, fez com que o fogo se propagasse com rapidez. Durante o combate às chamas, deu-se pelo menos uma explosão, provocada pelo rebentamento de uma garrafa de gás.

De início, pensava-se que Maria Rosa estava em casa do filho, onde costumava dormir nos últimos tempos. Mas depois de controladas as chamas veio a constatar-se o pior. O corpo da idosa, já carbonizado, encontrava-se “de bruços, fora da cama, junto à mesinha de cabeceira”, conta Carolina Cardoso Chaves, irmã da vítima.

Natural de Seia mas a viver em Fazendas de Almeirim desde pequena, Maria Rosa Leocádia teve uma vida dura. Trabalhou no campo até há pouco tempo e quando ficou viúva convenceu a filha a construir-lhe a barraca de madeira. “Ela sempre quis ser independente, gostava de estar com os seus trapos e não queria dar trabalho a ninguém”, adianta a irmã.

Mesmo assim, aceitou frequentar o Centro de Dia de Fazendas de Almeirim, passando a dormir com frequência em casa do filho, em Almeirim. No entanto, “pedia-lhe muitas vezes para vir ficar à barraca”e o filho acedia, mas visitava-a com frequência para lhe dar as refeições. Segundo Carolina Chaves, no sábado ele passou o dia com a idosa, “deu-lhe o jantar e deixou-a deitada”.

Horas depois, chegava a notícia de que a barraca estava a arder. “Deduz-se que ela tenha tentado acender o candeeiro a petróleo” e provocado o incêndio por acidente, acrescenta a irmã.

Maria Rosa Leocádia passou por períodos difíceis na vida e, por isso, tinha uma postura independente e o hábito de se isolar. “Como viveu no tempo em que se passou muita fome, era daquelas pessoas que gostava de guardar tudo”, com medo de um dia vir a precisar, explica Carolina Chaves.

Como mulher precavida que era, a idosa resolveu assegurar em vida o local onde iria repousar depois de falecer. Para isso, comprou um lote de terreno no cemitério há uns anos e colocou uma lápide em sua memória.

Além da fotografia, do nome e data de nascimento, a mulher acrescentou a frase “Recordação de seus filhos”. Depois de comprar o lote, passou a deslocar-se ao cemitério com frequência para colocar flores na sua futura campa. Este comportamento chegou a confundir alguns moradores, que, ao verem a sepultura decorada com flores frescas, perguntavam a Carolina Chaves se a irmã já tinha morrido.

O corpo de Maria Rosa Leocádia foi transportado para a morgue do Hospital de Santarém, a fim de ser submetido a autópsia. Só depois do exame será possível marcar a data das cerimónias fúnebres, que irão realizar-se na igreja de Fazendas de Almeirim.

A GNR tomou conta da ocorrência mas não há suspeitas de crime. “Ninguém esperava que isto acontecesse”, desabafa Carolina Chaves, ainda abalada pela imagem da barraca a arder.
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