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Correio da Manhã

Portugal

Fogo mata família em pensão ilegal

Rés-do-chão, primeiro andar e águas furtadas estavam alugados de forma ilegal. O espaço no prédio era apertado para tanta gente.
8 de Fevereiro de 2011 às 00:30
Maria, o marido João e o filho João Dinis foram encontrados sem vida.
Maria, o marido João e o filho João Dinis foram encontrados sem vida. FOTO: Carlos Barroso

Cerca de 15 pessoas, de várias nacionalidades, partilhavam a pensão improvisada nas Caldas da Rainha, onde ontem de madrugada uma família portuguesa morreu intoxicada e sete pessoas ficaram feridas, no incêndio que terá sido provocado por uma vela acesa. João Francisco Mafra Monteiro, 51 anos, a mulher Maria Sameiro Pires Costa, 41, e o filho João Dinis Costa Monteiro, 19 anos, foram encontrados sem vida.

As chamas deflagraram pelas 04h40, num dos quartos do primeiro andar, ocupado por uma mulher ucraniana, que não ficou ferida. O fogo terá começado por consumir um sofá-cama. O comandante dos bombeiros das Caldas da Rainha e responsável da Protecção Civil, José António, admitiu ao CM que o "descuido com uma vela" terá originado o fogo, que destruiu também a mobília do quarto. "Não ardeu nada onde estavam os outros quartos mas estavam com muito fumo".

Num dos quartos das águas furtadas, que estava trancado, encontravam-se pai, mãe e filho que morreram intoxicados por inalação de fumo. De nada valeu as tentativas de reanimação dos bombeiros, que garantem ter chegado três minutos depois do alerta.

"Estariam 13 pessoas aqui a viver. Três morreram. Quatro foram para o hospital e duas foram assistidas no local. Os outros fugiram pelos próprios meios", diz José António, surpreendido com o cenário encontrado na casa. "Havia espaços do edifício utilizados ilegalmente. Não era possível ter licença de habitabilidade tendo em conta as condições que encontrámos. Nas águas furtadas era impossível".

Era nas águas furtadas que vivia a família morta, "num espaço muito exíguo e pouco arejado para três pessoas" - um T0 com cozinha, sem casa de banho, "sobrelotado". O dono do prédio foi dos primeiros a chegar e bateu às portas dos quartos para as pessoas saírem. Sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus numa mão ao ajudar os seus hóspedes. Foi transferido para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

"NUNCA SOLICITARAM VISTORIA À CÂMARA"

Situado no centro histórico da cidade, entre o tradicional Mercado da Fruta e o Parque D. Carlos I, o edifício onde funcionava a pensão ilegal chegou a ser uma escola primária e foi reformulado em 1999, tendo sido aumentado num piso "para ser utilizado como escritórios, mas a utilização para habitação e aluguer de quartos não estava prevista", revelou ontem o presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, Fernando Costa.

Segundo o autarca, para o nº 4 da Travessa da Piedade "foi pedida autorização para utilização como escritórios", mas mesmo para essa finalidade não havia ainda sido emitida a licença. "Nunca solicitaram sequer vistoria à câmara para utilização como escritórios", indicou o edil, assegurando que "a câmara desconhecia completamente a utilização daquele espaço para residência". A câmara vai abrir um processo de averiguações e admite que o proprietário venha a ser sancionado, informou o autarca.

DISCURSO DIRECTO

"DETECTOR DE INCÊNDIOS NÃO FUNCIONOU":

José António Comandante Bombeiros Caldas da Rainha

Correio da Manhã - Uma moradora que accionou o socorro queixa-se da demora no atendimento. É normal?

José António - Desde o momento em que recebemos o alerta até chegarmos foram três minutos. O que levou mais tempo (nove minutos) foi transferir a chamada do 112 para o CDOS de Leiria e dali para os bombeiros das Caldas. Mas é um tempo razoável.

- A reacção das pessoas perante o fumo foi a mais correcta?

- Todos os quartos tinham extintor de incêndio mas nenhum foi utilizado. Também o detector de incêndios não funcionou. Se tivesse funcionado teria dado alerta com o disparo de uma sirene. As pessoas não terão dado conta.

SALTO DO TELHADO PARA FUGIR ÀS CHAMAS

Seis moradores, de origem brasileira e ucraniana, ficaram com ferimentos ligeiros. Três mulheres e um homem foram assistidos no Hospital das Caldas da Rainha e outras duas mulheres no local do incêndio, recusando ser transportadas. O sétimo ferido é o dono do prédio. Uma das sinistradas tinha efectuado um salto de três metros de largura do telhado do prédio para outro em frente, o que lhe provocou fracturas nos pés. O socorro foi prestado por vinte bombeiros. 

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